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ARTIGO

Fausto Matto Grosso: "Paixão, política e cegueira"

Engenheiro civil, professor aposentado da UFMS

4 NOV 19 - 02h:00

Ultimamente, tenho ficado surpreso e assustado com a radicalização das pessoas. Todas são donas da sua verdade e ficam cegas à complexidade do mundo e das situações. Nesse contexto, a sociedade passa a ser dominada pela lógica amigo/inimigo.

Será que o brasileiro deixou de ser o “homem cordial” de que nos falava Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”? 

A expressão “cordial” é comumente mal interpretada. Não significa, ao contrário do que se pensa, apenas bons modos e gentileza, virtudes muito elogiadas pelos estrangeiros. Cordial vem do radical latino cordis, isto é, relativo a coração. Ou seja, somos pessoas que, de fato, orientam-se mais pela paixão do que pela razão. 

Talvez a palavra mais adequada devesse ser sentimental e não cordial. O próprio Buarque chamava a atenção: “A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”.

A rapidez com que o brasileiro passa do caráter amável para a hostilidade seria uma das fortes características do nosso povo. As reações de amor e ódio têm provocado nas ruas e nas redes atitudes que desconhecem os limites do que é civilizado.

Para ampliar nosso entendimento, talvez devêssemos nos socorrer, também, em Zygmunt Bauman, especialmente em “O Mal-Estar da Pós-Modernidade”. Segundo o sociólogo, vivemos com uma sensação de que algo está errado com a humanidade. O mal-estar social é resultado de algo instalado na consciência do homem atual como uma angústia, que o faz viver como um peregrino sem rumo histórico.

Assinala ainda que a sociedade contemporânea vive um sentimento de fracasso por não alcançar a tão almejada felicidade. As utopias se desmancharam no ar, as ideologias coletivas se fragmentaram em aspirações individuais. 

As questões da nossa identidade enquanto povo, combinadas com os sinais dos novos tempos, talvez expliquem os fenômenos políticos que temos assistido no Brasil.

Nos últimos anos, especialmente após a campanha presidencial, temos convivido com uma onda de ódio e discriminação jamais vista em nossa história. Fake news, calúnias injúrias e todo tipo de palavrões marcaram esse período. Esse tempo está mostrando os sentimentos “cordiais” de intolerância e de falta de polidez no nosso convívio social.

Quem seguiu as redes sociais e os programas eleitorais se deu conta dos níveis baixíssimos de respeito mútuo e de falta de sentido democrático de convivência com as diferenças. 

Após as eleições, o clima não se desanuviou, muito pelo contrário. O pior é que o próprio presidente, e seu entorno familiar e ideológico, milita diretamente nessa radicalização. 

O reposicionamento internacional do Brasil tem sido feito de maneira desastrosa, implicando em potenciais prejuízos para a nossa economia. A questão ambiental das queimadas na Amazônia demonstrou a insensibilidade do governo com a questão ambiental. A poluição das nossas praias mostrou um governo despreparado para lidar com crises. As reações quanto às mudanças políticas e eleitorais na América Latina têm sido desastrosas e apontam para o nosso isolamento. 

As ações políticas do governo normalmente tem se processado fora da institucionalidade, com o uso irresponsável das redes sociais, que lhe conduziram, inclusive, a um vergonhoso puxão de orelha pelo Supremo. 

Enquanto isso, o País vive sobressaltado à espera do que pode vir a acontecer com a institucionalidade democrática. Essa preocupação parece se estender, também, à cúpula das Forças Armadas, que aparentemente não está seduzida pelo entorno ideológico do presidente Jair Bolsonaro. Nesse clima, tem predominado a teoria da conspiração que tem induzido seus seguidores a posições extremadas e ingênuas.

Hoje, cada um tem a sua própria narrativa, o que lhe é de direito, mas é impossível cada um ter seu próprio fato. A paixão política tem conduzido o brasileiro à cegueira e o País à incerteza.

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