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ARTIGO

Fausto Matto Grosso: "Deuses e fogo na floresta"

Engenheiro civil e professor aposentado da UFMS

10 SET 19 - 02h:00

A natureza e as florestas sempre foram protegidas pelos deuses. Na mitologia grega, tínhamos Pã, deus dos bosques e dos campos. Metade homem, metade bode, era filho de Zeus com sua ama de leite, a cabra Amalteia. Vivia flanando pelos bosques tocando flauta e dançando com sedutoras ninfas.  

Já os etruscos tinham Flora. Os sumérios, Inana, Os romanos, Sivano e Fauno. Os gauleses, Cerridwen, e os celtas, a deusa Jhanna.  Também os encontramos na mitologia egípcia, hindu e maia. A Amazônia está mesmo precisando da proteção dos deuses. Que não nos faltem a proteção de Iara e Jaci, nossas deusas tupis-guaranis.

Meio ambiente e desenvolvimento sustentável têm se tornado assuntos de todos. As expressões caíram na boca do povo. Existem duas possibilidades. Ou viraram um chavão, destituído de significado real, ou representam um conceito que realmente se tornou o “zeitgeist” – o “espírito dos tempos”, termo criado por filósofos alemães – da nossa era.
Essa última hipótese parece ser a mais verdadeira. O meio ambiente se tornou um dos problemas globais mais candentes e um desafio da civilização. Meio ambiente e desenvolvimento têm que caminhar juntos.

O termo desenvolvimento sustentável foi definido pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, da Organização das Nações Unidas, em 1987. Desenvolvimento sustentável é aquele que “satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Ou seja, não é apenas a questão da nossa qualidade de vida, mas, sim, a dos nossos descendentes, portanto, é também um desafio ético. 

A questão não pode ser entendida como um problema que possamos resolver dentro das nossas fronteiras e, sim, exige grandes articulações civilizatórias, com acordos e entendimentos amplos, pactuados em grandes fóruns globais, com os quais devemos ter compromissos, embora nosso governo esteja sendo relutante quanto a eles.

Dentro deste contexto, surgem os incêndios na Amazônia. É certo que existem muitas falsas verdades e muitos mitos nessa discussão. É falsa, por exemplo, a ideia de que a Amazônia seja pulmão do mundo. Igualmente é mito que os defensores do meio ambiente são pessoas radicais, fanáticas, poetas, inocentes/úteis que se mantêm alienadas da realidade, sonhadores com um paraíso inexistente. Esses preconceitos nos cegam e tiram nossa racionalidade.
A inteligência nos remete a filtrar as narrativas, com a ajuda da ciência, que infelizmente anda tão maltratada ultimamente. Mas ela é nossa única ferramenta na busca da verdade.

Segundo Fernando Henrique Cardoso, precisamos de bom senso e racionalidade, virtudes que ele considera difíceis num país polarizado. Patriotismo não se mede por bravatas nacionalistas, sobretudo, quando insultuosas. A proteção do bioma amazônico é, acima de tudo, do interesse do Brasil, um interesse coincidente com o dos demais países que compartilham esse bioma e também com o do planeta. 

Nestes dias da crise das queimadas, a questão não pode ser tratada como tema ideológico. Tem ficado claro que o presidente não tem a maioria da opinião pública ao seu favor, fato comprovado pelas recentes pesquisas do Datafolha e da Consultoria XP. Segundo esta última, as pessoas acham que os principais responsáveis são fazendeiros e posseiros (39%), que a atuação do governo tem sido ruim e péssima (49%), que o País deve aceitar a ajuda do G7 (70%), mesmo que esse tenha como motivação os interesses políticos e econômicos (62%).

O Brasil precisa, pois, de políticas ambientais ditadas pelo equilíbrio, como tem demandado a população. Que os deuses da floresta nos protejam. Apelemos para a mitologia indígena. Que o Curupira e a Caipora protejam o ambiente de seus predadores humanos, ludibriando-os para que se percam na floresta, espantando suas presas, batendo nos cães de caça e desorientando os caçadores com toda sorte de ruídos.

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