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Campo Grande - MS, terça, 13 de novembro de 2018

ARTIGO

Ernesto Caruso: “A gente faz as coisas erradas e é solto... bom demais!”

Militar reformado

17 AGO 2017Por 02h:00

O título reproduz as palavras de um condenado com tornozeleira eletrônica, algemado, ao lado do PM, sorrindo, alegre e mostrando com entusiasmo a peça presa à sua perna. O repórter pergunta: “O Brasil vai bem desse jeito?”. E ouve: “Pra mim vai bem... mas para o cidadão de bem não vai não... eu uso droga, ‘meto o bicho’... e a polícia ainda vai me levar em casa... este é o Brasil”.

Acredite se quiser. 

O policial militar que o detém fala ao telefone celular e informa ao interlocutor, como dito, integrante do Conselho Penitenciário (C), que o preso foi autuado pela quebra da medida cautelar e uso de drogas, acrescenta que o delegado alega competir ao Copen receber o indigitado, já que está com a tornozeleira, e que, se o conselho discordar, ele (delegado) também não vai recolhê-lo.

Durante o diálogo, enquanto ouve o interlocutor explicando não poder receber o preso, “que tem que liberar”, comenta em voz baixa, nitidamente desiludido, contrariado: “Uma beleza, uma beleza meu irmão... Brasil... eu vou levar ele em casa... polícia desmoralizada... eu sou taxista de vagabundo... vou levar esse cidadão de bem... junto da sua família... tô de graça, tô morto...”. Para chocar mais e demonstrar a sua indignidade, insinua abraçá-lo e diz: “É meu amigo...”.

O desencanto do policial, presente no âmago do lado bom da sociedade, em todas as classes, repercute pelas redes sociais de modo incontrolável, gradualmente sedimentado e produzindo reações explosivas nas palavras chulas e crescentes a indicar o limite entre a razão e a explosão dos sentimentos. Como se expressou o detido sorridente: “Pra mim vai bem... mas para o cidadão de bem não vai não”, ao responder à pergunta: “O Brasil vai bem desse jeito?”.

No lado marginal da sociedade em qualquer das classes, a descrença do policial na gestão pública, transformada em revolta pela corrupção generalizada, temperada pelo uso e disseminação das drogas e elevada à enésima potência na cabeça do adolescente, deseducado em casa e na escola, às vezes abandonado, produz o quê?

Soldado do crime organizado! E em progressão geométrica. É o que se assiste diariamente. No grau mínimo da revolta, o saque ao caminhão tombado na estrada, na avenida ou levado para a favela, onde o poder público não chega, a não ser para as tentativas infrutíferas de neutralizar os bandos que se formam constantemente.

Reação em cadeia (de concreto, insuficiente diante da necessidade) se alastra pelo País, inconteste guerrilha urbana, expropriação cópia da luta ideológica, em que os bandos superam em muito o dispositivo policial das cidades do interior onde um dia o cidadão viveu em paz. Paz que não se desfruta nos grandes centros urbanos, desgraçadamente administrados, como no Rio de Janeiro, desde o início dos anos 1980.

A tônica era de que polícia não sobe os morros e em vez de transformá-los em bairros, abrindo vias de acesso aos serviços básicos, optou-se por uma “liberação geral”, posse, demagogia, desorganização, gueto; posturas municipais, meio ambiente e ordem só para o asfalto, mais ou menos.

Os barracos de zinco e madeira, celebrizados pelo poeta – “Ai, barracão, pendurado no morro e pedindo socorro à cidade a seus pés/Ai barracão tua voz eu escuto...”–, se transformaram em alvenaria; os governos não ouviram a voz do morro nem a do barracão que pedia socorro. Sítio primário que se espalhou como câncer no Brasil, muito mais doente nas décadas iniciais deste século vinte e um.

Cenas como essa do policial descrente se repetem às dezenas, às centenas. Não é só com bandidinho, mas com bandido graúdo. Um prende e solta abominável perante o estupefato e inconformado povo brasileiro. Não se trata só de político, consequência das sentenças do juiz Sergio Moro a prender e por outros juízes a soltar.

A lei é que não presta, quem a faz é incompetente ou mal intencionado, ou estamos diante do fato consumado, irreversível, do caos total? A toga está rota, esfarrapada? O agente público é desprezível, relapso e vendido?

Não é crível nem aceitável que todo o poder público esteja contaminado, mas a desesperança parece ter contaminado a sociedade.

Há que se pensar em barreira que seja forte o suficiente para conter o mar de lama que grassa pelo País e para que não se repitam os malfeitos no caso da barragem Samarco/município de Mariana.

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