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Editorial desta terça-feira: "Repeteco da Lama"

8 AGO 2017Por 03h:00

Há várias perguntas sem respostas e o prefeito demonstrou ainda não ter se aprofundado para dirimir as dúvidas sobre esse vultoso gasto.

O montante pago pela Prefeitura de Campo Grande para alugar caminhões, pás-carregadeiras e outras máquinas impressiona e infere suspeitas pertinentes sobre a real necessidade de tantos gastos.

Impossível não recordarmos os prejuízos que os sul-mato-grossenses tiveram recentemente com o esquema revelado pela Operação Máquinas de Lama, um dos desdobramentos da Lama Asfáltica, envolvendo representantes da secretaria estadual de Obras durante a gestão passada.

É natural que esse temor reapareça em decorrência da falta de vantagens explícitas ao município, da semelhança entre as contratações e da fragilidade para acompanhar quanto será devidamente utilizado e pago às empresas. 

Vale relembrar: no esquema investigado pela Polícia Federal, a locação “fantasma” de máquinas era uma das estratégias usadas para lavagem de dinheiro e pagamento de propina no esquema de superfaturamento de obras de rodovias.

O empresário João Amorim, dono da Proteco, firmava contratos fictícios para alugar escavadeiras, motoniveladoras e caminhões. Assim, a obra, cuja verba era financiada pelo BNDES e paga com dinheiro do contribuinte, encarecia porque milhões eram desviados para os integrantes da quadrilha.

Ainda em 2016, as incongruências nas locações já apareciam no inquérito. As investigações continuaram e culminaram em nova fase em maio deste ano, quando até o ex-governador André Puccinelli teve a liberdade cerceada por uso de tornozeleira, retirada mediante pagamento de fiança. 

A falta de controle sobre quantas máquinas foram realmente alugadas garantiu a margem para que informações fossem forjadas e recursos públicos desviados. Obviamente, espera-se que jamais tais crimes voltem a se repetir.

Mas há motivos para desconfianças. Conforme publicações em Diário Oficial, a prefeitura da Capital tem contratos que somam R$ 50 milhões com as empresas JR Comércio e Serviços Ltda. e MS Brasil Comércio e Serviços para a locação de veículos.

A JR está impedida de participar de licitações e de firmar contratos com poder público em virtude da sanção aplicada, pois está listada no Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas (Ceis) do governo federal. Este é apenas um dos motivos para estranheza da contratação.  

A atual gestão está se complicando com as explicações. O secretário municipal de Obras, Rudi Fiorese, justificou que não utilizaria todo o montante previsto nos contratos, pois trata-se apenas de uma previsão.

Há várias perguntas sem respostas e o prefeito Marcos Trad demonstrou ainda não ter se aprofundado para dirimir as dúvidas sobre esse vultoso gasto, contrassenso com o período de dificuldades econômicas. 

É preciso esclarecer também a duplicidade de serviços previstos com outros já contratados, a exemplo da manutenção de vias. Ainda, comprovar se esse dinheiro exorbitante compensa mais do que comprar caminhões e máquinas.

Sem os devidos esclarecimentos, permanece o “fantasma” dos contratos suspeitos e o risco de o dinheiro público voltar a ser “jogado na lama”.

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