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ARTIGO

Daniel Medeiros: "O tempo"

Doutor em Educação Histórica pela UFPR

31 JUL 19 - 02h:00

Quando eu nasci, ter a idade que tenho agora – 55 anos – era já ser velho. No Império Romano, vivia-se, em média, 30 anos. Quando aprendi sobre isso na escola, eu tinha por volta de 15 anos e pensava que, se fosse comigo, viveria ainda mais uma outra metade de vida. Mas a ciência desfez minhas ilusões de chegar aos 30 e morrer de velho. Hoje, se digo a alguém que sou velho, sou repreendido, como se eu tivesse dito algo muito errado, algo como um “pra mim fazer”. Na Itália, aumentaram a idade para dizer que alguém é velho. Pra ser velho por lá, tem de ralar mais. No Japão, ou em alguma parte do Japão, muitas pessoas passam dos 100. Haja esforço pra tudo isso.

Acompanho jovens há muitos anos, desde quando eu mesmo era apenas um pouco menos jovem do que eles. E uma das coisas que sempre me chamou atenção é como o tempo é um enorme tormento para eles. Os dias são longuíssimos, as manhãs começam muito cedo e não acabam nunca, as tardes são cheias de sono e as noites repletas de limitações. Sempre que podem, o que é quase sempre,  eles, os jovens, estão cansados e sonolentos. Nas filas dos aeroportos, enquanto em geral os mais velhos enfrentam resignados as longas e intermináveis filas, os jovens se esponjam pelo chão, os olhares esgazeados como se estivessem sem ar. Vivem a exata experiência da materialização do tempo, o lento e incessante passar de sua procissão de segundos, minutos, horas.

E como nossas convenções atribuem pouco valor de decisão aos jovens e há uma série de vedações legais, só o tempo – esse algoz – pode libertá-los para a vida adulta. E, no entanto, quando ela chega, traz consigo, quase sempre, por causa do trabalho, da família, dos impostos, o sequestro desse mesmo tempo antes tão abundante – e o fardo é repaginado, agora com as cores do relógio de ponto. E passamos então o tempo todo sonhando com o tempo em que não teremos nada para fazer, como quando se era jovem, só que agora com a compreensão de que aquele tempo todo era ouro puro e trocamos por balinhas de menta. Como diria o Pessoa, “raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!”.

Outra coisa ainda é o tempo do desemprego, o tempo da doença, ou da dor. Esse tempo traz consigo o desejo de não existir, de que tudo se extingua. E quando ele passa, a volta da rotina é tola e alegremente comemorada. Até que ela, por sua vez, vire rotina de novo. E, mais uma vez, queremos que passe, passe. E quando passa, queremos que pare, pare, como um delírio, uma fome que não há comida que cesse.

O tempo é tão igual, monocórdio, que marcamos, ao longo dele, alguns momentos para lembrarmos que estamos aqui, existimos, temos alguma concretude. É o que chamamos de eventos: o aniversário, o fim do ano, as bodas de amor ou de trabalho, a data da viagem que queremos inesquecível. Nessas datas, declaramos uma espécie de grito de guerra contra a pasmaceira do tempo, sua insensibilidade com o fato de que somos nós que fazemos as coisas acontecerem, caramba! Dizemos: hoje é um grande dia. Hoje é uma data única! O tempo, bom, o tempo nem olha ou se importa com esse barulho todo, não se apressa nem se atrasa. Segue, segue, sem rumo ou propósito.

Heráclito, que já entre os gregos era conhecido como “o obscuro”, dizia que tudo é mudança. “Só há o devir”. Tudo flui. E é só isso. Sem objetivos ou finalidades. Como estar sobre a corda bamba. Se você conseguir se equilibrar, fica feliz, entusiasmado. Até perceber que é só isso. Não há mais nada para fazer ali. E o precário equilíbrio torna-se a melhor situação quando a outra alternativa é cair da corda.

Por isso, talvez, os antigos afirmassem que o que há para fazer no tempo é realizar feitos para que seu nome não seja esquecido. Não é possível parar o passar dos anos, mas é possível imprimir nele marcas reconhecíveis pelos que virão. Tipo dar um duplo mortal carpado sobre a corda bamba e ficar ali, congelado, com um sorriso no rosto para a foto que restará. É o que se chamava de “glória”. Para os que não a conseguiam, a morte não era o pior: o pior era o esquecimento. O corpo, desfeito no Letes, liquefeito, liquidado. O inferno para os antigos não era arder, era dissipar-se na memória dos vivos.

Penso que devo o fato de estar vivo – apesar de velho – ao que outras pessoas fizeram no mundo nesse tempo todo. Melhoraram a qualidade das águas, dos alimentos, dos remédios, do trabalho, das condições gerais de vida. Remando contra a maré nostálgica, aceito o que afirma Steven Pinker: vivemos o melhor dos tempos. Não me imagino sem a anestesia, antibiótico, ar-condicionado, sem o elevador, sem o zíper, ou o Band-Aid, sem o FaceTime, ou as entregas de comida em casa. Por isso, creio que meu tempo extra deve-se a essas pessoas e busco encontrar formas de compensá-las, tentando ser uma pessoa com alguma contribuição pública minimamente relevante.

Acredito que os gregos, quando falavam em glória, imaginavam algo assim. Para fazer valer esse tempo todo que a gente passa por aqui, na maior parte tempo sem utilidade ou graça, tem de realizar algo inesquecível. Como lembrou a mulher de Leônidas, antes de ele enfrentar os persas em Termópilas, ao lhe entregar o escudo com o símbolo de Esparta: “Volte com ele ou sobre ele”.

É isso. A vida é esse mar de tempo e umas pequeninas ilhas de glória espalhadas. A vida vale a pena para quem chegar ao maior número dessas ilhotas e deixar algo lá que torne a vida do próximo melhor e mais fácil. Algo que faça com que lembrem sempre o quanto o tempo seria ainda mais longo, cansativo e doloroso se não fosse a dedicação dessas pessoas.

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