Campo Grande - MS, terça, 21 de agosto de 2018

Correio do Estado

Confira o editorial desta segunda-feira:
Terras ociosas

21 AGO 2017Por 03h:00


Pagamos mais caro e deixamos oportunidades de emprego e melhoria de renda beneficiarem produtores de outros estados 

O potencial de Mato Grosso do Sul para o agronegócio é indiscutível. Tanto que a soja, o milho e a pecuária continuam sendo propulsores de nossa economia, gerando empregos e contribuindo significativamente para a arrecadação estadual. Com a chegada das fábricas de celulose a Três Lagoas, a silvicultura passou a entrar nesse ranking de destaque. Assim, vários produtores apostaram na nova atividade e plantaram eucalipto, acreditando que teriam destino certo para comercializar essa matéria-prima. Hoje, como mostra reportagem do Correio do Estado, são 200 mil hectares de florestas no Estado ainda com futuro indefinido. Essa problemática exemplifica, na prática, as consequên­cias da omissão do Estado na orientação a quem decide iniciar investimentos na área rural. 

Obviamente, começar um novo negócio – seja em que meio for – implica em riscos. É preciso planejamento, ter metas definidas, avaliar as despesas e o custo-benefício, além de conhecer o mercado.

Na área rural, há alguns diferenciais. Avaliar clima, solo e, novamente, não se esquecer do mercado consumidor. A Eldorado Brasil – que pertence ao Grupo J&F e que está em processo de venda – arrendou terras próximas num raio de 110 quilômetros de distância da fábrica, no máximo. Com os planos de expansão adiados até a conclusão da nova negociação, corre-se o risco de dificuldades para comercialização de florestas plantadas em municípios mais distantes. Não é recomendável, por exemplo, plantar cana-de-açúcar longe da usina, porque a logística não compensa.  Mesmo preceito que deveria ter sido aplicado no caso do eucalipto. 

Mato Grosso do Sul dispõe de quantidade invejável de terras, mas esse espaço ainda é pouco aproveitado. Em tempos de recessão econômica, a Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) deveria ampliar sua atuação, colocando técnicos e agrônomos à disposição de produtores que decidam investir em nova atividade. Hoje, pouquíssimo é feito para estimular a agricultura local. MS segue estagnado na produção de frutas, verduras e legumes, com grande dependência de outros estados. Produtos como banana, melão, laranja, abacaxi, batata e maçã percorrem vários quilômetros antes de chegar à mesa dos consumidores sul-mato-grossenses. Assim, pagamos mais caro e deixamos as oportunidades de emprego e melhoria de renda beneficiarem produtores de outros estados. 

As atividades agrícolas ficam restritas. Os produtores atropelam-se nas mesmas culturas. Se o mercado não vai bem, quase todos “afundam” juntos. Então, todo o ano, repete-se o enredo de faltar armazéns para o milho safrinha, porque muitos ainda estão lotados com soja, aguardando melhores preços. Neste ano, por exemplo, a produção recorde de milho não pode ser devidamente comemorada porque o valor caiu 54%. 

Diversificar a produção poderia trazer benefícios para todos, mas essa escolha precisa ser feita com orientação e avaliando corretamente o potencial do mercado consumidor. O governo do Estado tem de ampliar essa parceria, pois a frustração no campo também refletirá em decepção com a receita dos cofres públicos. 

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