Campo Grande - MS, domingo, 19 de agosto de 2018

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta segunda-feira: "Polêmica na saúde"

28 AGO 2017Por 03h:00

O atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) virou sinônimo de drama, diante da dificuldade de achar o essencial: médico.

Ahistórica falta de médicos na rede pública de saúde representa hoje desafio de complexa resolutividade aos gestores da área. Procedimento simples, para instalação de ponto eletrônico nas unidades de saúde, tem se transformado em polêmica. O sistema de controle é regra para diversos trabalhadores em empresas privadas, mas encontra resistência no serviço público.

O raciocínio é simples: se a pessoa cumpre corretamente sua carga horária de trabalho não teria motivo algum para questionar ou temer esse dispositivo para monitorar frequência e pontualidade. Em Campo Grande, o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, já prevê redução de até 50% no número de profissionais da área quando os relógios de ponto forem instalados. Consequência que expõe a falta de comprometimento com o principal princípio de quem escolhe essa profissão: zelar pelo paciente.    

Nos últimos anos, o governo federal destinou aos municípios recursos para construção de Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSFs), com foco na atenção básica e composta por equipe multiprofissional. Pelo projeto original, esses locais deveriam contar com médico, ao menos, em um dos turnos para consultas. Seria uma estratégia interessante para focar na prevenção e, assim, tentar diminuir a superlotação constante nos hospitais, antes que determinados casos se transformassem em emergência. Na prática, esses espaços estão constantemente vazios.

Os gestores municipais receberam “novo fardo” no orçamento, pois não contam com recursos suficientes para equipar e, principalmente, contratar funcionários para essas unidades.  Não cumprem com o papel para o qual foram planejadas.

Por fim, a carga horária necessária para fechar a escala de trabalho acaba priorizando os plantões e, assim, os moradores recorrem às Unidades de Pronto Atendimento Médico (Upas) quando precisam. Têm de peregrinar em busca de especialistas, a exemplo de pediatras. O atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) virou sinônimo de drama, diante da dificuldade de achar o essencial: médico para atender. Nesta semana, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, fez declaração forte, que demonstra a dificuldade que também existe para o poder público: “Vamos parar de fingir que a gente paga médicos e o médico parar de fingir que trabalha. Isso não está ajudando a saúde do Brasil”, disse Barros. 

A frase resume bem a resistência que ocorre ao controle de frequência pelo ponto eletrônico. O conflito decorre da questão financeira. O governo remunera mal o profissional, que acumula diversos plantões (em alguns casos, com carga horária incompatível e inexequível) para aumentar seus rendimentos. Ao médico, é preciso, com urgência, resgatar os preceitos que constam no Juramento de Hipócrates: “(...)Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação...”. O discurso não pode se limitar ao dia da formatura. É essencial colocá-lo em prática na rotina de trabalho. 

Sem hipocrisia, não há mais como fechar os olhos para as reais causas do problema, pois quem mais perde continua sendo a população.  
 

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