Campo Grande - MS, terça, 21 de agosto de 2018

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta segunda-feira: "Burlando as regras"

14 AGO 2017Por 03h:00

Em mãos ineficientes e irresponsáveis, carro, moto ou qualquer outro veículo são armas letais.

No Brasil, o símbolo de status é ter carro e uma casa. Claro, anos de prestação a perder de vista, mas são os troféus da transposição para a sonhada classe média. No caso do veículo, nem sempre existe o zelo de se seguir os procedimentos corretos. São cada vez mais recorrentes os flagrantes de pessoas não habilitadas no trânsito do País. Em Campo Grande, os números são consideráveis, como mostra a reportagem desta edição do Correio do Estado. Há, claramente, uma inversão de prioridade que precisa ser revista pelo condutor, mudança que pode significar redução muito grande no número de infrações, acidentes e mortes.

Pesquisa do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), divulgada no ano passado, mostra que, entre 2013 e 2015, a quantidade de novos habilitados caiu pela metade no Brasil (53%). A redução  foi notada em todas as faixas etárias, principalmente na idade de 22 a 30 anos (61%) e de 30 a 40 anos (60%). Nesses índices, há poucos casos dos que optaram por não tirar ou renovar o documento em decorrência da mudança de hábito, conectada à preocupação ambiental ou para levar vida menos sedentária. A maioria está ligada à crise e avaliação equivocada do custo/benefício: para se tirar CNH, a média de desembolso é de R$ 1,2 mil; a multa por dirigir sem habilitação com veículo apreendido é de R$ 800,00. Em entrevista nesta edição, o comandante do Batalhão de Policiamento de Trânsito (BPTran), José Amorim Longatto, alerta, ainda, para a permissiva legislação brasileira, em que é possível comprar veículo sem apresentar a documentação legal. Em mãos ineficientes e irresponsáveis, carro, moto ou qualquer outro veículo são armas letais. A falta de conscientização da importância das noções de direção segura ou defensiva.

Há, ainda, outros fatores que compõem o cenário, como o precário sistema de transporte público, que motiva a compra do veículo próprio.  Em Campo Grande, por exemplo, embora tenha se exaltado a entrega de novos ônibus,  em abril deste ano, não houve aumento da frota, apenas a troca de veículos, sem substituição àqueles em uso há mais de cinco anos. Depreende-se disso que esta será a única novidade nos próximos anos. Mantém-se, infelizmente, a cena cotidiana da lotação em horários de pico, a espera nos pontos e os terminais depredadados, neste caso, vandalizados pelos “usuários” e com manutenção capenga do consórcio responsável. Junte-se a isso a sensação de impunidade, alimentada por fiscalização quase inexistente. O condutor não habilitado passa anos nessa situação por não ter encontrado pela frente alguma das blitze realizadas, poucas, em relação à real necessidade. Basta dar uma volta à noite pela cidade.

Quantas pessoas não saem dos bares dirigindo, sem qualquer preocupação em se deparar com fiscalização da Lei Seca. Qual foi a última vez que você viu uma? O projeto Jovem Condutor, realizado em escolas públicas e citado na reportagem desta edição é uma iniciativa positiva, porém, exígua perto dos números de acidentes e mortes. Falta policiamento, melhorias no transporte coletivo e, acima de tudo, educação e conscientização de que as ações tomadas na esfera coletiva têm consequências que atingem a todos. Algumas, de forma irreversível.

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