Campo Grande - MS, quinta, 16 de agosto de 2018

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quinta-feira: "Novo terremoto"

24 AGO 2017Por 03h:00

Intriga que as denúncias sejam divulgadas paulatinamente, sem que haja o devido aprofundamento para torná-las incontestáveis.

Vem mais delação por aí. Nesta semana, o doleiro Lúcio Funaro, suspeito de ser o operador financeiro de políticos do PMDB, assinou acordo com a Procuradoria-Geral da República. Ainda ontem, começaram os depoimentos em que ele promete revelar novos detalhes de esquemas de corrupção envolvendo o presidente Michel Temer e políticos do PMDB com foro privilegiado. Tudo indica a chegada de novo “terremoto político”. Permanece a certeza de que novos “abalos sísmicos” surgirão, mas não se sabe de qual magnitude. Eles ocasionarão novos estragos na credibilidade política e na já combalida economia nacional. 

As investigações são importantes, devem continuar, e as delações premiadas mostraram-se instrumentos relevantes para desvendar esquemas de corrupção que causaram prejuízos bilionários aos cofres públicos. Ao mesmo tempo, temos visto que, isoladamente, essa ferramenta não tem sido suficiente para comprovar irregularidades. Faltam apurações mais contundentes para desmascarar todos os envolvidos, sem que fragilidades sejam facilmente constatadas ao ponto de colocar em xeque todo o significativo trabalho desenvolvido nas diferentes etapas da Lava Jato.  

Declarações anteriores dadas por Funaro já resultaram em ampla repercussão. Ele envolveu o nome do ex-ministro Geddel Vieira Lima, que chegou a ser preso, mas já está em liberdade. Revelou ainda que o presidente Michel Temer sabia do pagamento de propina na Petrobras e orientou a distribuição de dinheiro da Caixa Econômica Federal. Agora, ele promete trazer novas revelações envolvendo o nome de Temer. Na prática, sabe-se que a investida dificilmente terá efeito. A Câmara dos Deputados já rejeitou a denúncia por corrupção passiva, impedindo a investigação do Supremo Tribunal Federal (STF) contra Temer. A acusação de que ele recebia propina baseou-se em delação e gravação do empresário Joesley Batista, da JBS. 

Houve intensa articulação política e, assim, a ideia de impedir o aprofundamento da recessão foi usada como artifício para justificar o voto de quem rejeitou o prosseguimento da denúncia. Não seria o fim da crise, todos sabem. Há alguns meses, o juiz Sérgio Moro destacou que a “a exposição e a punição da corrupção pública são uma honra, e não uma vergonha...”. Mencionou ainda o risco de quando ela se torna habitual e sistêmica. Intriga, porém, que as denúncias sejam divulgadas paulatinamente, sem que haja o devido aprofundamento para torná-las praticamente incontestáveis. Dessa forma, as crises também se arrastam e se aprofundam em proporções semelhantes aos vazamentos das delações dos acusados que buscam acordos melhores para isentarem-se ou, ao menos, minimizarem os efeitos dos crimes que confessaram cometer. 

A população vem sendo castigada por desemprego, corte de investimento e escalada da violência em níveis incontroláveis. Acabou ficando em segundo plano diante da guerra entre poderes, do estrelismo descontrolado ou do ímpeto de vencer a batalha para provar culpa ou inocência. É preciso seriedade e responsabilidade para que a Lava Jato alcance a meta de banir corruptos, evitando que o foco seja desviado pelo exibicionismo ou por precipitações.  
 

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