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CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quarta-feira: "Vida real e rede social"

6 NOV 19 - 03h:00

Ser representante de uma cidade, de um estado, de um país, é muito mais que representar apenas seu próprio grupo.

Um gabinete parlamentar não é a extensão de contas em redes sociais. Nas redes sociais, o titular da conta só fala o que quer e o que é conveniente a seu público.

Entre as várias características de um regime democrático, a principal certamente é a possibilidade de um povo eleger, diretamente, seus representantes. Por meio do voto popular, é possível escolher os integrantes (e chefes) de dois dos três poderes da República.

Em uma democracia, aqueles que fazem as leis e que as cumprem são diretamente eleitos pelo povo. No caso dos que as aplicam, especificamente os ministros do Supremo Tribunal Federal, a escolha é feita pelo chefe do Executivo (eleito pelo povo) e confirmada pelos senadores (eleitos pelo povo). Ou seja, ainda há, mesmo que indireta, a participação popular, que pode ir além do voto.

Em tempos de cobrança mais direta da população sobre seus representantes, as redes sociais e os veículos da imprensa ajudam neste fim. É bom lembrar que a mesma participação popular que elege representantes em um regime democrático deve respeitar a vontade popular de grupos com visões diferentes de mundo e que também elegem seus representantes. Esta característica é típica da democracia.

Se atuar no regime democrático é se equilibrar entre suas causas e as causas do adversário, é possível concluir que o bom senso é o principal instrumento dos representantes que exercem o mandato que lhes é conferido. E este bom senso, nos últimos dias, parece não existir em alguns grupos de representantes.

Pode ser que, quando eleitos, vereadores, deputados federais e senadores não saibam os limites de atuação dentro dos cargos que ocupam. Talvez nem todos tenham tido a oportunidade de aprender que no Poder Legislativo municipal ou estadual, por exemplo, não é possível mudar leis e contratos feitos em nível federal.

Um gabinete parlamentar não é a extensão de contas em redes sociais. Nas redes sociais, o titular da conta só fala o que quer e o que é conveniente a seu público. Em rede social, quem não concorda com o que o titular da conta afirma pode deixar de segui-lo. E ainda há a opção de um cidadão não estar em uma rede social. Ela não é obrigatória, tampouco o conteúdo que circula nos perfis de parlamentares é uma verdade absoluta. Raramente em perfis de redes sociais há espaço para o contraditório e o compromisso com os fatos – como existe no jornalismo.

Em um regime democrático, a única rede social existente é a da vida real. Nela, o bom senso ainda resiste, e os mecanismos para respeitar a lei são exercidos pela tolerância à escolha da maioria. No mundo real, a realidade dos fatos e as diferentes opiniões têm de ser respeitadas. Sobre maioria, quando um grupo majoritário de pessoas, legitimamente escolhidas por seus representados, refuta uma investigação com pouca especificidade em seu objeto e uma proposta a menos de um ano das eleições, é porque este grupo entendeu que este é melhor caminho a ser trilhado dentro das regras do jogo democrático.

Ser representante de uma cidade, de um estado, de um país, é muito mais que representar apenas seu próprio grupo. Em um parlamento, não existem parlamentares mais legítimos que os outros. O voto, nem na urna, nem no congresso, é ganho no grito.

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