Campo Grande - MS, quinta, 16 de agosto de 2018

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quarta-feira: "Quem vai pagar essa conta?"

16 MAI 2018Por 03h:00

A construção da fábrica de fertilizantes da Petrobras deixou rastro de calotes e dívidas trabalhistas que ainda não se sabe se será apagado pelo grupo russo.

Orçada em R$ 3,2 bilhões ainda no início desta década, quando lançada, a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados da Petrobras deverá ter sua caixa-preta aberta no processo de venda para os russos, que deve ser concretizado em menos de três meses. Os questionamentos e a ansiedade em torno disso são grandes e válidos. A maior fábrica de fertilizantes da América Latina, como anunciado exaustivamente no lançamento do projeto, teve as obras de construção paradas em dezembro de 2014. Na época, a Petrobras informou quebra de contrato por parte do Consórcio UFN-3, composto pelas empresas Galvão Engenharia e Sinopec, em razão de atraso no cronograma. Era para a unidade ter entrado em operação há quase quatro anos. Mas, em vez disso, parou com 80% do projeto concluído, deixando aproximadamente cinco mil trabalhadores desempregados e muitos deles sem dinheiro até mesmo para retornar para o seu estado de origem. Cerca de 1,5 mil desses operários, como aponta o próprio Ministério Público do Trabalho, ainda esperam pelo acerto. 

E eles não foram os únicos a ficarem no prejuízo. Mais de 100 médios e pequenos empresários ficaram sem receber, um calote estimado em R$ 40 milhões e que gerou um efeito cascata de falências e desemprego. O impacto social e econômico foi tamanho na cidade de pouco mais de 100 mil habitantes que gerou uma ação pública coletiva, por meio da qual se conseguiu na Justiça o bloqueio de R$ 40 milhões das contas da Petrobras. O dinheiro está garantido há alguns anos, mas não há previsão de quando deverá chegar aos prejudicados. Em muitos casos, já é tarde demais. 

Desde a paralisação do projeto, a Petrobras e o Consórcio UFN-3 iniciaram um jogo de empurra com essas dívidas. De um lado, a estatal, bombardeada por denúncias de corrupção, alega que pagou ao consórcio pelo serviço e que caberia a ele repassar o recurso para os fornecedores; do outro, as duas empresas dizem não ter recebido todo o recurso. A Galvão Engenharia, importante frisar, é uma das investigadas na Operação Lava Jato e entrou com processo de recuperação judicial meses após a paralisação do projeto.
Faltou, no mínimo, gestão por parte da Petrobras, falha perigosa para uma empresa. E é isso que os ministérios públicos Estadual, Federal e do Trabalho buscam mostrar. A estatal, como contratante do serviço, é corresponsável pelo consórcio e por qualquer prejuízo deixado por ele. Partindo desse princípio, caberá ao grupo russo Acron assumir a responsabilidade tanto de concluir a planta e colocá-la para funcionar como também arcar com todos os danos gerados no processo de construção.

Um dos questionamentos do juiz do Trabalho substituto Márcio Alexandre Silva é: quem está comprando a fábrica sabe desse passivo? Quem vai pagar essa conta, afinal? Cabe à bancada de Mato Grosso do Sul e também aos governos municipal e estadual, que acompanham as negociações, cobrar um posicionamento mais claro da Petrobras sobre o pagamento desse passivo no momento da negociação. Caso contrário, aos empresários e trabalhadores restará amargar o prejuízo por mais longos anos.  

 

 

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