Campo Grande - MS, terça, 21 de agosto de 2018

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quarta-feira: "Inocentes ou culpados?"

6 SET 2017Por 03h:00

Corrupção cometida por eles (executivos do JBS) dependia do aval dos políticos que se beneficiavam com o dinheiro da propina.

A delação da JBS, considerada capaz de implodir a Presidência da República e abalar fortemente o Planalto, agora, passa a ser impactada por outro áudio capaz de fazer fracassar todo o acordo que originou as denúncias. Importante salientar que não serão invalidadas as provas e os documentos apresentados pelos empresários. Apenas os benefícios concedidos aos delatadores devem ser revistos. As recentes revelações, porém, tornaram-se a munição ideal para a defesa dos acusados armarem o contra-ataque contra a Procuradoria-Geral da República.

A “bomba” cai agora no colo do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que já enfrenta bombardeio de críticas sobre o instrumento da delação premiada e os acordos que acabavam recompensando aqueles que decidissem entregar os demais envolvidos nos esquemas de corrupção, método que embasou quase todos os desdobramentos da Lava Jato.  

Gravações envolvendo Joesley Batista e outros executivos da JBS chegaram à Procuradoria-Geral da República e demonstram que houve omissão de crimes. O ex-procurador Marcelo Miller, que por cerca de três anos foi braço direito do procurador-geral Janot, teria ajudado o empresário Joesley Batista e os demais delatores da JBS a elencar temas que deveriam ser delatados, mesmo quando ainda atuava no Ministério Público.

Miller pediu exoneração no dia 5 de abril para atuar justamente no escritório de advocacia responsável pela leniência do grupo, o que já provocava controvérsia. O fato, corroborado pelas últimas gravações comprometedoras, abala a credibilidade da procuradoria, mas está longe de significar a isenção de culpa daqueles implicados nas denúncias feitas pelos irmãos Batistas. Ao menos, isso seria o correto, por mais que já haja suspeito comemorando antecipadamente. 

Crimes graves foram revelados, envolvendo até mesmo o presidente da República, Michel Temer. Vários políticos foram citados em esquemas de corrupção, favorecimentos para obtenção de empréstimos ou pagamento de propina em troca de incentivos fiscais às empresas do grupo. Aqui mesmo, em Mato Grosso do Sul, os irmãos Batistas relataram na delação que foram beneficiados durante os governos de Zeca do PT e André Puccinelli e continuaram usufruindo de benesses por meio de acordos ilícitos firmados com Reinaldo Azambuja, num esquema que totalizou R$ 150 milhões. Nas apurações iniciais, inclusive na CPI instaurada pela Assembleia Legislativa, já foi confirmado que os termos de acordo que garante descontos significativos de ICMS não estavam sendo cumpridos. Os investimentos de ampliação e geração de empregos não eram executados, mas havia conivência dos gestores para que as benesses fossem mantidas. 

O simples fato de existir a punição aos irmãos Batistas implica na responsabilização dos demais envolvidos nos esquemas ilegais. Afinal, a corrupção cometida por eles dependia do aval dos políticos que se beneficiavam com o dinheiro da propina. A única diferença é que, teoricamente, todos deveriam agora ser devidamente responsabilizados pela Justiça pelos crimes cometidos. A omissão de informações na delação não anula seu conteúdo. Por enquanto, tem ficado cada vez mais difícil identificar bandidos e honestos nesta guerra em que nem mesmo o Judiciário tem chegado a um entendimento.    
 

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