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Campo Grande - MS, segunda, 22 de outubro de 2018

CORREIO DO ESTADO

Confia o editorial deste sábado: "Herança maldita"

13 OUT 2018Por 03h:00

Considerado atualmente um dos principais problemas mundiais de saúde pública  – não somente de segurança –, o impacto da dependência química afeta também aqueles que, muitas vezes, nem pediram para vir a esse mundo. Além de todas as dificuldades sociais e de saúde gerados pelo uso de drogas, no caso das mulheres, ainda há o risco de afetar diretamente o bebê, num cenário de gestação. O problema é chamado pela medicina de síndrome de abstinência neonatal. Na prática, é a dependência química herdada pelo bebê ainda no ventre da mãe.

Somente os dados apresentados por uma única maternidade já servem como base para acender o sinal de alerta para esta questão. Como mostra reportagem do Correio do Estado deste sábado, em Campo Grande, são, em média, três casos por mês, em uma única unidade hospitalar de bebês que nascem com essa síndrome e que recebem acompanhamento médico e tratamento adequado. Em uma maternidade do Estado de São Paulo, são cerca de trinta bebês nascidos já com dependência química por mês. O número total de crianças obrigadas a enfrentar esta luta já nos primeiros dias de vida em todo o território nacional é desconhecido, o que torna a situação ainda mais grave. Como não se trata de um diagnóstico simples – pelo contrário, é de extrema complexidade – e não há obrigatoriedade de notificação dos casos, como ocorre com a dengue, por exemplo, fica impossível saber ao certo o número de crianças que nascem com a síndrome. Consequentemente, também não se sabe se todas essas mulheres estão recebendo tratamento.  O drama se agrava de acordo com a condição da mãe: os cenários mais críticos são de dependentes em situação de rua.

Há tempos, o vício em drogas passou a ser tratado como epidemia em todo o Brasil. Porém, o País ainda patina nas políticas públicas para recuperar esses dependentes químicos. O caso de uso de drogas durante a gestação, então, pouco é citado. No início desta semana, o governo federal anunciou a ampliação do programa de acolhimento de dependentes químicos em comunidades terapêuticas. Foram liberados R$ 90 milhões para ampliar, de R$ 6 mil para 9,4 mil, o número de vagas em comunidades que são instituições da sociedade civil. A meta, segundo o governo Temer, é chegar no fim de  2019 com a média de até 28 mil atendimentos, levando em consideração o tempo de cada internação. É pouco, diante da gravidade do problema. 

No programa, porém, raramente é falado sobre os casos de drogas durante a gestação. Faltam políticas públicas principalmente para casos extremos, como os de moradoras de rua, cuja gestação é levada sem nenhum tipo de acompanhamento médico. No caso específico de gestantes, além da saúde da mãe, que corre sérios riscos ao consumir drogas durante a gestação, também é preciso pensar no bebê, que, sem o acompanhamento necessário, pode ter graves sequelas para o resto da vida.

Para chegar perto de, pelo menos, um empate nessa luta contra as drogas – já que uma vitória parece tão distante –, é importante lembrar que os dependentes químicos não podem ser tratados fora de contexto. Eles são mais que números. Cada caso tem suas peculiaridades, e a possibilidade de gerar um bebê já dependente precisa ser prioridade entre eles.
 

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