Artigos e Opinião

OPINIÃO

Christiane Couve de Murville: "Um ensaio sobre percepção e realidade"

Doutora em Psicologia pela USP

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Certos experimentos mostram que, conforme a frequência com que fazemos vibrar uma lona com sal sobre a sua superfície, obtemos um arranjo diferente das partículas que estão sobre ela. Para cada frequência, as partículas de sal se organizam em um desenho diferente.

Considerando que vivemos em um universo onde tudo vibra, talvez o que conseguimos enxergar da realidade não passe de um possível arranjo das energias presentes no universo. Assim, conforme a faixa vibracional que sintonizamos, encontramos uma possibilidade de desenho e organização da realidade para a qual estamos sensíveis e que tomamos como verdadeira.

A realidade que surge a nossa volta está intimamente vinculada a capacidade perceptiva e sensibilidade a vibrações, como se fôssemos antenas captadoras e emissoras de frequências. Mas o quanto conseguimos, de fato, captar do que nos rodeia?

No mundo material tridimensional que conhecemos, estamos acostumados com os cinco sentidos relacionados ao nosso corpo físico: tato, paladar, olfato, visão e audição. Construímos uma imagem da realidade a partir das impressões e sensações que nos chegam. No entanto, os sentidos operam como filtros da realidade, permitindo capturar fragmentos distorcidos daquilo que se apresenta ao nosso redor.

Por analogia, um exemplo são aqueles brinquedos infantis com peças coloridas em formatos variados para encaixar em orifícios com a mesma forma. Assim como esse jogo, os filtros dos sentidos só deixam passar e ser capturado o que pode ser assimilado em nossos modelos de percepção. Uma parte desta realidade não encontra canal de decodificação sensível e, infelizmente, esse refugo é a maior parte.

No estado de vigília, chegam-nos apenas pedaços do que se encontra a nossa volta, e de forma fracionada, separados pelos sentidos, ocasionando visões, impressões e concepções distorcidas da realidade. Ninguém percebe ou vive na mesma realidade, mas na sua particular, com as belezas e os horrores que compõem o seu mundo.

Apesar de eventualmente nos considerarmos sóbrios, vivemos como bêbados no dia a dia. Com os sentidos operando como filtros da realidade, limitados à faixa vibracional que sintonizamos e distorcidos por nossas interpretações tendenciosas e enviesadas do mundo ou da nossa percepção dele, dificilmente conseguimos enxergar as coisas como de fato são.

 

ARTIGOS

Batalha sem vencedor

Campo Grande enfrenta um quadro de desorganização administrativa que atinge diretamente o cotidiano da população

02/03/2026 07h30

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Campo Grande vive um momento de colapso. As promessas de campanha de Adriane Lopes foram respaldadas pela alta cúpula da política sul-mato-grossense, que se mobilizou intensamente no segundo turno.

A disputa no maior colégio eleitoral do Estado despertava expectativas claras: fortalecer projetos políticos e pavimentar 2026 com uma vitória estratégica na Capital.

Criaram-se expectativas. Alimentaram-se esperanças. O esforço coletivo nos palanques indicava confiança em dias melhores para a cidade – e dividendos eleitorais para seus apoiadores.

Passado um ano, porém, o cenário é outro. Campo Grande enfrenta um quadro de desorganização administrativa que atinge diretamente o cotidiano da população.

Os buracos se multiplicam de norte a sul, a saúde pública opera sob forte pressão, o transporte coletivo vive sob ameaça de intervenção, o aumento do IPTU gera indignação e as políticas sociais avançam em ritmo lento.

A sensação predominante é a de uma cidade à deriva, onde tanto a prefeita quanto o cidadão comum parecem travar uma batalha diária sem vencedores.

Enquanto os problemas se acumulam, a possibilidade de reequilibrar a gestão torna-se cada vez mais remota. E mesmo que, por algum movimento extraordinário, a administração consiga retomar o rumo, será difícil reconstruir o prestígio político e a confiança daqueles que reconduziram a prefeita ao Paço Municipal.

Os estrategistas da gestão sabem – ou deveriam saber – que o tempo joga contra. As chances de transformar o cenário em ativo eleitoral diminuem na mesma proporção em que crescem as insatisfações nas ruas.

E os mesmos aliados que antes disputavam espaço para fotos e declarações públicas ao lado da prefeita agora mantêm distância prudente diante da crise.

Ainda que haja uma reversão parcial do quadro, os reflexos serão inevitáveis na próxima eleição para governador, senador, deputado federal e deputado estadual.

Tornou-se difícil encontrar argumento capaz de sustentar, perante o eleitorado campo-grandense, uma narrativa que justifique tamanha deterioração administrativa. Se a prefeita atravessa um processo de desgaste acelerado, seus fiadores políticos terão tarefa árdua para se dissociarem do resultado dessa aposta.

É preciso reconhecer que há esforços da prefeitura para reagir. No entanto, ações isoladas dificilmente compensarão perdas acumuladas ou restaurarão, em curto prazo, os serviços e a confiança que se esvaíram. Pelo ritmo atual, qualquer reação tende a ser insuficiente para produzir uma inflexão perceptível na vida da cidade.

Campo Grande exige mais que remendos: demanda direção, coordenação e resultados concretos. E, sobretudo, respostas que estabeleçam a confiança de uma população que já demonstrou disposição em acreditar, mas que agora cobra, com razão, aquilo que lhe foi prometido.

EDITORIAL

A indústria refém: o banquete que alimenta o abuso e atropela a ética

Enquanto o industrial sul-mato-grossense luta por competitividade, a cúpula da Fiems se encastela em 19 anos de poder, privilégios e opacidade

02/03/2026 07h15

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A Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems) foi criada para guiar o desenvolvimento econômico e proteger a classe industrial, mas vive hoje um dilema de opacidade que compromete sua legitimidade.

Em outras épocas, quando ainda o Estado não vivia essa condição de desenvolvimento, a gestão se prolongou pelo período de 1979 a 1999, ou seja, por quase 20 anos.

A atual presidência se prolonga desde os idos de 2007, neste ano está completando aproximadamente 19 anos, e a entidade dá os mesmos sinais de fadiga e parece ter se transformado em uma estrutura de interesses fechados – um personalismo que atropela a ética institucional.

A permanência prolongada no poder gera perguntas que a sociedade não pode ignorar. Quando uma instituição que administra recursos vultosos – oriundos de contribuições compulsórias e verbas federais – se fecha em um sistema em que o apoio pessoal vale mais que o mérito, a democracia interna se esvazia. Surge, então, a figura do feudo.

As denúncias veiculadas pelo Correio do Estado desenham um quadro alarmante de descaso com a finalidade pública.

Reportagens apontam conflito de interesses de determinados conselheiros e indicam que se utilizem da capilaridade da entidade para negócios em benefício próprio, distorcendo a concorrência e ferindo a moralidade administrativa.

É minimamente inaceitável. Incoerência fiscal: um dos membros da cúpula figura entre os maiores devedores de ICMS do Estado, valendo-se de influência para manter benesses, enquanto credores comuns aguardam uma definição da Justiça para reaver seus créditos.

Dizem que depois das denúncias foi afastado do cargo, também, pudera! Passivo ambiental: outra investigação publicada pelo Correio do Estado aponta que conselheiro tem papel central em desmatamentos ilegais, acumulando multas milionárias que afrontam o discurso de sustentabilidade e ESG com o qual a indústria sul-mato-grossense tenta se projetar no mercado global.

Onde deveria haver fomento à inovação, há privilégio, onde deveria haver transparência, há sombras. Compliance e governança são palavras bonitas e muito usadas, mas pouco se aplicam à entidade.

Voltamos à máxima: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Conselheiros em posições de alto poder ou destaque não podem gerar suspeitas, sendo a aparência de conduta correta tão crucial quanto a honestidade real.

Essas revelações não são meros escândalos setoriais, são riscos diretos aos interesses a que deveriam servir, os industriais.

É perturbador que, enquanto a indústria luta para manter empregos e competitividade, a cúpula que deveria defendê-la faz tours nababescos, que beneficiam poucos em detrimento de muitos e cujos resultados são questionáveis, para não dizer medíocres.

A inércia das autoridades de controle e do Judiciário diante desses fatos amplia a sensação de impunidade. Até quando o silêncio das autoridades será a resposta para o uso indevido da entidade? Num estado onde temos pleno emprego, o dinheiro destinado das indústrias não pode ser objeto de projeto pessoal ou protegido por segredos, deveria ser destinado à qualificação da mão de obra, a cursos profissionalizantes.

O atual vigor econômico do Estado é fruto de políticas públicas adotadas pelo governo atual e, principalmente, dos anteriores e do suor dos empresários, e não de uma gestão que se recusa ao contraditório e trata críticos como se fossem inimigos.

O silêncio das autoridades, nesse cenário, é também omissão: é urgente uma resposta para a sociedade, pois, à medida que o silêncio se impõe, ele se perpetua e os direitos retrocedem rapidamente.

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