Campo Grande - MS, quinta, 16 de agosto de 2018

OPINIÃO

Cezar Benevides: "Homens públicos mato-grossenses"

Professor aposentado da UFMS

2 JUN 2017Por 01h:00

Existem homens públicos dignos aqui e alhures? Certamente, muitos. Vou me restringir a mencionar apenas um já falecido e outro aposentado, para evitar constrangimentos e eventuais ciumadas. E o faço com o sentimento vivo de pertencimento, como simples observador da rica história de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, mas também da história do Brasil neste conturbado tempo presente.

É, aliás, uma sensação incrível a de ter bons amigos em várias cidades favoritas e de me sentir ligado a uns e a outros por laços de estreita afeição espiritual e intelectual. Em João Pessoa, Londrina, Curitiba, Aquidauana, Campo Grande, Cuiabá, Rio de Janeiro e São Paulo, essas relações de amizade estão todas associadas nas memórias que estou redigindo e publicando pela editora paranaense Estúdio-Texto.

Foi interessante reencontrar agora, na antiga capital do estado de Mato Grosso, os amigos professor Aecim e senhora Celita Tocantins, em companhia do ilustre professor Fernando de Tadeu de Miranda Borges, digno pró-reitor de Cultura da Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá. O distinto casal manteve longa amizade com o ex-governador José Fragelli e senhora Lourdes Alves Ribeiro. A propósito desse encontro, recebi da Europa o seguinte e-mail assinado pelo meu amigo Nelson Fragelli:

“Caríssimo professor Cezar. Sem dúvida, o casal Tocantins representa um tesouro da amizade dos velhos tempos, quando havia sincero apreço por pessoas de valor. Conheci o pai de Dona Celita. A casa dele, no Porto, permanece em minha memória como uma das visões encantadas da infância”.

Magnífico depoimento. Apesar da idade avançada, o professor Aecim Tocantins continua tendo uma compreensão humana lúcida e profunda. Quais foram os pontos culminantes de sua trajetória de honrado homem público mato-grossense, contador e auditor de elevada competência e probidade? Um deles foi a sua controversa nomeação para o cargo de Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Mato Grosso.

Ele me revelou que o governador José Fragelli fez a indicação do seu nome à Assembleia Legislativa, como estava previsto na legislação. Toda a bancada estadual se reuniu e escolheu outro candidato. Em seguida, marcou audiência com o governador para solicitar que retirasse a sugestão que fizera. Fui vizinho do casal Fragelli em Aquidauana e sempre notei que ele era firme em todas as circunstâncias. Assim não me surpreendi com a reação que tivera diante de todos os deputados presentes na reunião. 

Segundo as palavras do professor Aecim, o governador teria afirmado que era natural a intenção dos parlamentares de proteger um dos seus membros e pediu que eles rejeitassem o nome por ele indicado. Contudo, esclareceu, que enquanto fosse governador a referida vaga não seria preenchida.

O que ele disse repercutiu em todo o Estado e representou um golpe mortal para a bancada estadual. Uma a uma, estão se apagando nas minhas lembranças as luzes daquela casa hospitaleira da Rua Marechal Mallet 101, que representara papel tão relevante na história social da Marcha para Oeste. Enquanto as últimas luzes de meus olhos fatigados não se extinguirem, continuo me deslocando entre as queridas cidades que mencionei, afirmando aos amigos que, nesta fase de minha existência, os últimos livros que posso ler são as palavras ditas por criaturas humanas inesquecíveis que tenho encontrado ao longo desta caminhada.

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