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Campo Grande - MS, terça, 23 de outubro de 2018

OPINIÃO

"Bullying, tiros, vingança e dor"

Ana Paula Siqueira Lazzareschi de Mesquita, advogada

13 OUT 2018Por 02h:00

O ambiente de intolerância e violência nas escolas, notadamente públicas, precisa da adoção de medidas fortes para contenção de cenas que têm se tornado comuns: agressões, tiros, mortes e dor. Isso é necessário porque os casos de bullying subiram 17% somente no Estado de São Paulo, conforme consta da pesquisa realizada pela Secretaria de Educação. Em todo o País, a situação piora a cada dia, nas escolas públicas e privadas, por uma simples razão – salvo raras e honrosas exceções –, os estabelecimentos de ensino e clubes ignoram a lei nº 13.185/15 e os incisos IX e X da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).
Infelizmente, diversos gestores escolares limitam-se a apresentar cartilhas antibullying ridículas, prontas, pré-fabricadas e sem nenhum enlace afetivo, emocional ou jurídico com a comunidade escolar. Os supostos discursos de cultura de paz para a contenção do bullying, apresentado por determinadas escolas, envergonham o mais incauto estagiário de pedagogia.

O fato é que jovens estão morrendo pela falta de comprometimento de administradores escolares, governantes e pedagogos que sequer conhecem as consequências jurídicas da violência sistemática que alunos, professores e famílias sofrem diuturnamente.

Cobrar drástica e firmemente mudança de atitude é imprescindível para enfrentar o caos. Exigir a participação da família é fundamental e prevista no ordenamento jurídico brasileiro. De acordo com o artigo 226 caput da Constituição Federal, a família é a base da sociedade e é protegida pelo Estado e que é, por meio da família, que existem todas as estruturas que formam a sociedade, nos requisitos éticos, morais, comportamentais e religiosos, por exemplo, fazendo com que exista uma sincronização entre a família e a sociedade. Neste sentido, o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê que a base familiar é de significativa importância para o desenvolvimento da criança e do adolescente, com o escopo de estruturar os aspectos físico, mental, moral, espiritual e social, resguardando sempre a dignidade da pessoa.

O dever de guarda que compete aos pais e responsáveis deve ser exercido de acordo com o artigo 22 do ECA. A guarda é mais do que um dever dos pais, é direito do jovem de ser reconhecido e guardado enquanto morar com seus pais. Caso este direito não estiver sendo cumprido pela família, essa se tornará a principal responsável por danos causados ao jovem, sem prejuízo de até correr o risco de perda da guarda e o poder familiar.

O dever de guarda transcende a lei e é transferido para o estabelecimento de ensino no momento em que a criança ou o adolescente ingressa na escola.

Ao implementar políticas de governança e compliance escolar e, consequente, um programa efetivo de combate ao bullying, a instituição de ensino finalmente representará a superação da intolerância, da discriminação, da exclusão social, da violência, da incapacidade de aceitar o outro, o diferente, na plenitude de sua liberdade de ser, de pensar e de criar livremente, sem medo de ser o próximo alvo de violência.

O Programa de Combate à violência sistêmica, previsto em lei nº 13.185/15, objetiva muito além da prevenção e da erradicação do bullying: capacitar docentes e equipes pedagógicas para a solução do problema; implementar e disseminar campanhas de educação, conscientização e informação; instituir práticas de conduta e orientação de pais, familiares e responsáveis diante da identificação de vítimas e agressores; dar assistência psicológica, social e jurídica às vítimas e aos agressores; integrar os meios de comunicação de massa com as escolas e a sociedade, como forma de conscientização do problema e evitar, tanto quanto possível, a punição dos agressores, privilegiando mecanismos e instrumentos alternativos que promovam a efetiva responsabilização e a mudança de comportamento hostil.

As escolas, clubes e associações precisam assumir o protagonismo da educação antibullying como entes aptos a promover a socialização de cada membro integrante, sejam eles pais, alunos, professores, funcionários, sócios ou associados.

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