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Campo Grande - MS, terça, 16 de outubro de 2018

ARTIGO

Antonio Carlos Siufi Hindo: "Retrato da esperteza"

Promotor de Justiça aposentado

13 AGO 2018Por 02h:00

Quando os franceses foram expulsos do território português as cortes exigiram o imediato retorno do príncipe regente D. João VI para Lisboa. Tinha sentido aquela reivindicação. Portugal sendo a metrópole, não poderia ter o seu príncipe vivendo fora dos seus limites territoriais.

O seu retorno foi surpreendente. Sabedor que o Brasil iria se separar de Portugal mandou que o seu filho colocasse imediatamente a Coroa do futuro Império do Brasil na sua cabeça antes que qualquer aventureiro dela lançasse mãos. Essa recomendação não surgiu da noite para o dia, D. João VI não era nenhum incauto. Sabia que os espertos, os oportunistas, os aventureiros estavam entranhados em nossa estratificação social.

Eles foram produtos da própria esperteza de seus antecessores. O nosso começo foi triste. A esquadra de Cabral partiu para consolidar o caminho para as Índias. Mas acabou atracando em frente ao monte batizado de Pascoal no litoral sul do atual estado da Bahia. O “ acaso “ foi a tese sustentada para o descobrimento. Ela está inserida nos anais da nossa história. Mas isso é uma questão para os historiadores enfrentarem.

Com essa esperteza os portugueses abriram uma contenda judicial com os espanhóis. O Tratado de Tordesilhas regularmente assinado deu a Portugal um pedaço generoso de terra com as bênçãos do papa Alexandre VI. Mas a esperteza portuguesa, aliada à sua gula insaciável não parou com essa conquista generosa. Queriam mais. Desrespeitaram o tratado e invadiram as terras espanholas através das Entradas e Bandeiras. Exemplo reprovável.

Despertou o interesse de corsários europeus para cá se deslocarem para roubar nossos produtos econômicos.  A luta contra os invasores foi ensandecida. A situação se agravou com a nossa formação cultural e social.  Os nossos primeiros habitantes foram os condenados pela Justiça da metrópole. 

Desprovidos de formação técnica não contribuíram em nada para a nossa integral formação como povo e também como nação politicamente organizada. Foi o inicio anunciado do nosso desastre social. O círculo da nossa angustia estava fechado. Essa esperteza ensejou a ambição sem limites dos seus súditos. A ordem era substituir os valores morais, culturais, sociais e políticos pelo gosto delicioso do enriquecimento econômico.

Traçou a rota para outras práticas ilícitas. Abriu espaço generoso para o  surgimento de novas ideias, imaginações e criatividades que marcharam na linha diametralmente opostas aos nossos mais nobres e elevados sentimentos de amor à Pátria. Nesse contexto se agigantaram os maus propósitos. Hoje temos sua fotografia desnudada. 

Os roubos, os assassinatos, os assaltos, a pistolagem, as drogas, as armas, e as munições, que todos os dias entram em quantidade assustadora através das nossas fronteiras escancaradas mostram essa realidade vergonhosa. Evoluíram para as organizações criminosas. Seus soldados matam o seu semelhante por motivo,  pífio. O aparelho estatal não consegue acompanhar a celeridade das suas ações.

Suas ramificações, já ganharam proporções gigantescas. Estão enraizadas em todos os estados da federação. O dinheiro sujo é abundante e generoso. Os seus soldados crescem na mesma proporção do índice de desempregados e também dos famintos. Nessa luta dramática pela sobrevivência não temem a Lei. Não respeitam a autoridade constituída. Zombam da punição imposta pela Justiça. A impunidade respaldam suas ações covardes. 

Essa é a conversa rotineira que escutamos todos os dias nas ruas e nas oficinas de trabalho. Elas estão nos lábios do homem simples do povo e também dos ilustrados.  Esse quadro de absoluta morbidade social mostra que a verdade estava com D. João VI. Ela se confunde com  o seu  próprio vaticínio. 

Hoje o quadro social evidencia que nada detém essa marcha sanguinária. Ela extrapolou os nossos limites territoriais. Avançou para o continente sul americano. Deter, imediatamente esse avanço, deverá ser o grande desafio do novo presidente da República. 

A abertura de novas frentes de trabalho será o grande tentáculo a motivar o desaparecimento paulatino desse pecado social. Só a educação humaniza as pessoas. As nossas famílias precisam trabalhar com segurança. Não podem mais chorar a morte prematura de seus entes queridos  arrancados do seus convívios  com a brutalidade das barbáries.

Essa angústia mórbida não pode mais ser arrastada por tempo indeterminado. Não somos merecedores dessa anátema social. A esperteza não poderá evoluir para o crime. Não pode contar com a certeza da impunidade.

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