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ARTIGO

Antonio Carlos Siufi Hindo: "República do baronato"

Promotor de Justiça aposentado

22 NOV 19 - 02h:00

A proclamação da República foi o maior de todos os engodos praticados pelas lideranças políticas contra a esmagadora maioria do povo brasileiro. Essa massa sofrida, humilhada, faminta e maltrapilha teve de engolir em silêncio e de forma resignada a sorte determinada pela força econômica do baronato. Esse grupo social rico, próspero e seleto foi o mesmo que antecipou a maioridade de Pedro II, garantindo a continuidade do Império, e depois quando não lhe interessava mais a figura imperial simplesmente recomendou o seu exílio político na cidade de Paris. Pedro II sempre foi um imperador querido pelo povo brasileiro. 

A realeza europeia nutria respeito pelo imperador. Sua formação moral, cultural, social e política foram determinantes para esses desafios. José Bonifácio de Andrada e Silva tem uma participação decisiva na formação do nosso monarca. Foi ele o seu tutor. Inclinou-o a tomar gosto pelas artes, ciências, literatura e música. Interesses escusos sepultaram a monarquia. O colóquio realizado na casa de Rui Barbosa não foi a senha de um desastre anunciado. As causas motivadoras do golpe já estavam materializadas, há muito tempo. A questão religiosa, a questão militar, a Guerra do Paraguai e ainda a maçonaria foram as suas grandes vertentes. A abolição da escravatura foi a sua sentença de morte. Essas instituições por meio das suas lideranças representativas conseguiram a concretização das suas reivindicações justas. A igreja, sobretudo. A República implantada separou as duas grandes instituições. Os militares desprestigiados pelas autoridades do Império tiveram suas reivindicações atendidas. República forte, militarmente respeitada nos moldes do positivismo de Augusto Conte, animou sobremaneira a tropa. A maçonaria sempre esteve na linha de frente dos grandes acontecimentos ocorridos em nosso território. Desde o período colonial até a nossa formação como nação. Tudo isso sob a égide dos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade que fomentaram a Inconfidência Mineira, a independência política e foram determinantes na construção da República. 

Os únicos que não foram beneficiados foram os escravos libertados, que se juntaram à grande massa dos trabalhadores brancos desempregados. Para essa legião imensa de homens e mulheres nada mudou. Um pecado monstruoso para quem só aprendeu a trabalhar, respeitar e se humilhar. Mas o pior estava ainda para acontecer. Sem trabalho essa mão de obra farta e generosa foi direcionada para as atividades do campo. Passaram a ser os servos das glebas dos barões do café  e dos coronéis do gado. A relação era de uma fidelidade canina. Não tinham salários. Trabalhavam para não morrer. A ganância pelo lucro rápido e sem dispender grandes volumes de recursos financeiros fez dos grandões os seus carrascos. Mas isso tudo ainda era pouco. Esse segmento insaciável no desejo de querer sempre mais passaram a mandar na política. Escolhiam os presidentes da República e os mandatários das antigas províncias, agora transformadas em estados federados por meio de colóquios condenáveis. Os deputados e senadores cumpriam suas ordens. 

A história republicana na sua fase preambular está recheada desses fatos de triste memória. O voto popular descoberto e ainda a inexistência da Justiça Eleitoral favoreciam esses escandalosos atos. A ordem era reduzir a pó os mortais. Negaram-lhe o direito sagrado à educação e à saúde como elementos essenciais para uma vida digna. O trabalho não tinha a chancela da lei. A CLT só foi surgir após mais de meio século da Proclamação da República. Assim mesmo não aconteceu da noite para o dia. Foi preciso uma revolução armada comandada por Vargas para atender a um reclamo justo da classe trabalhadora. A República, que é o sinônimo de coisa pública, tinha de beneficiar o conjunto da população brasileira. De forma igualitária. Com as oportunidades de progredir, prosperar e vencer na vida colocadas sem nenhuma restrição. Mas não é o que está acontecendo. 

Marchamos para completar o primeiro quarto do século 21 e os nossos principais indicadores sociais continuam apontando para o mesmo desastre social daquela época. Algo incrível de se acreditar. As riquezas precisam ser mais bem distribuídas. Elas geram a produção, fomentam o trabalho, definem o salário, giram a economia. Todos saem ganhando na dança dessa bonita festa. Esse é o maior de todos os prêmios que a República ainda está devendo para a grande massa da sua população. Avançamos bastante, mas não o suficiente para darmos a esse mesmo povo uma vida digna. Sobretudo, coberta de virtudes divinas.

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