Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

CENAS

André Luiz Alvez: “Putz grila!”

*Escritor, publicitário e ator (acido13@gmail.com)

13 AGO 2015Por 00h:00

Estava com os pés esticados sobre uma almofada e a cabeça refestelada num travesseiro, quando tive a ideia de escrever esta crônica diferente, com elementos de escrita que não usamos mais, inspirado no diálogo que ouvi na noite anterior, num daqueles restaurantes da Feira Central. 

Um casal, pela aparência, julguei que se conhecera nos anos oitenta, tentava escolher no cardápio o que comer. O homem, um grandalhão desajeitado, que mal cabia na cadeira, de repente exclamou: “Putz grila, broto!”. Não pude evitar a alegria que se formou em meu rosto. Adoro palavras que não usamos mais.

Então, fui para casa assistir a um filme antigo, que, de borocochô, a história ficou supimpa e me interessei pelo quiprocó que se formou, quando um cara cafona, ao lado de uma sirigaita, tomou vários goles no bico da garrafa e, ignorando a amiga lambisgoia, lançou olhares prafrentex em direção à loira de farmácia, que nem sequer lhe deu bola. 

Com a cara cheia de manguaça e chateado pelo fora, pegou no volante do carro chumbrega, fazendo zigue-zagues até provocar uma trombada. Restou o abacaxi para o sujeito resolver. O dono do outro carro surgiu de repente: “Putz grila, olha o que você fez com a minha caranga!”, gritou desesperado, porque gostava mais do carro que da gata que o acompanhava, e foi juntando, com as duas mãos, o pescoço do bebum.

Logo surgiu uma patota que tentou manter tudo nos trinques. Era um grupo jovem e unido que imediatamente me remeteu à minha antiga curriola. Ah, os amigos de antes, que fim levaram? A turma era batuta, fazíamos o que nos vinha na veneta. Quando as coisas ficavam difíceis, dizíamos: tá russo, na dúvida, o escambau;  na raiva, chispa daqui. 

Senti uma pontada de fossa das antigas, aquela leve dor de cotovelo que logo passava, bastava arrumar outra paquera. Certa vez, a amiga de uma amiga pediu para ela me dizer que me achava um pão. Fiquei envaidecido.

É que ser pão era tudo de bom. Minha tia namorou um sujeito porque, segundo ela, dito-cujo era um pão. Podes crer, ela estava gamada. Caramba, gamada! Quem é que fica gamada hoje em dia? O tímido era mocorongo e, quando as coisas caminhavam para o brejo, parece que ainda ouço o mais ponderado falar: podes crer, isso vai dar bode.

Aquele amigo que dizia que eu era um barato, existe em tons cinzas na minha memória, porque, tanto tempo de ausência, fez com que eu me esquecesse do seu rosto, da voz e de tudo o mais.
“Chocrível tudo isso, saca?”. Ele não tinha muito lero-lero com as mocinhas que passeavam na calçada com medo de ouvir um assovio constrangedor. Quando o filme acabou, restaram saudades e palavras mortas na minha cabeça. 

Fui à geladeira, peguei um grapete e bebi tentando sossegar a alma, que insistia em lembrar que eu já fui careta, cafona, bicho grilo. Minha nossa! Será que continuo sendo bicho grilo? 

Em homenagem às palavras mortas que não voltam mais, deixo neste epílogo reticências, em vez da frieza de um ponto final... 

* Escritor, publicitário e ator (acido13@gmail.com)

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