Campo Grande - MS, segunda, 20 de agosto de 2018

ENTREVISTA

'Vou deixar a cidade melhor do que recebi', promete Nelsinho Trad

10 ABR 2011Por ICO VICTÓRIO, CORREIO DO ESTADO11h:49

Se estivesse no último ano de seu mandato, 2012, certamente o prefeito Nelsinho Trad não teria como cumprir esta promessa, mas como ainda faltam 20 meses, em sua avaliação, é tempo suficiente para entregar a cidade muito mais bonita do que quando recebeu do seu antecessor André Puccinelli.

"Temo, mas não tremo. Citei agora Santo Agostinho porque nunca me furtei de enfrentar, de peito aberto, todos os problemas". A frase, segundo o prefeito, é resposta para críticas recebidas de setores da sociedade, em especial da classe política, pela situação de caos provocada pelo período mais chuvoso da história, em um único mês de março. "Em vez deles (políticos) criticarem, deveriam ajudar".

Para a comunidade, em especial famílias afetadas pelas frequentes inundações de ruas e casas, Nelsinho Trad avisa: vai fazer um grande mutirão quando o período chuvoso acabar. Enquanto isso, disse, a população pode conferir equipes se desdobrando entre operação tapa-buracos e limpeza nos bairros e vilas, com foco prioritário para as linhas de ônibus e vias de maior movimento.

Para 2012, o prefeito recorre a velho jargão político: vou fazer justiça na elaboração da planta do IPTU para evitar transtornos". Mais além, afirma que Santa Casa sempre será um desafio para um adminiustrador e que bem ou mal o hospital atende a todos, indistintamente. Veja abaixo a íntegra da entrevista.

A cidade sofre há dois meses com as chuvas e a população cobra resposta urgente de sua administração. Quando o senhor pretende iniciar a recuperação dos estragos?

Primeiro, é bom que se registre: Campo Grande nunca apresentou esses índices pluviométricos ora registrados. Só no mês de março, choveu o equivalente à metade do previsto para o ano de 2011 todo. E com uma característica: nos anos anteriores, essas chuvas vinham e estragavam um determinado ponto da cidade. O que aconteceu esse ano foi diferente: ela veio e estragou a cidade como um todo. Não deixando escapar nenhum setor de danificação. A população sempre exige a resposta pronta, imediata. E nós nos angustiamos muito com isso, porque a gente também quer consertar de pronto. Mas a gente vê que enquanto esse período de chuva estiver imperando na cidade, tudo aquilo que você conserta e gasta para consertar, corre o risco de se perder na vinda da próxima chuva. Então nós tomamos a seguinte medida: vamos apenas consertar o essencial tampando os buracos, principalmente nas vias principais da cidade, como já estamos fazendo, organizando as ruas na periferia, principalmente as linhas de ônibus, e deixando para fazer um grande mutirão de ação dentro da cidade quando a estiagem chegar, ou seja, quando o sol brilhar de novo.

Como campo-grandense, qual o sentimento pessoal sobre essa situação?

Um sofrimento muito forte. Não tem ninguém nessa cidade para sofrer mais do que eu nesse momento. Uma angústia, uma imobilidade, uma sensação de não poder agir porque tudo o que você vai querer fazer, se vier a chuva, acaba com tudo. Destruir tudo aquilo que você fez, como já têm feito. Fui a alguns pontos da cidade, mandei fazer com a autoridade de prefeito, os operários fizeram, mesmo me recomendando esperar um tempo mais firme. Veio a outra chuva e levou todo o serviço. A partir daí, eu comecei a constatar que, infelizmente, nós temos que esperar o tempo firmar para poder entrar com as máquinas e recuperar a cidade da melhor forma possível.

Qual é o valor real dos prejuízos provocados pelas chuvas neste período em toda a cidade?

Quase R$ 50 milhões. Só no programa de emergência que nós estamos levando para o governo federal, reconhecido que ficamos em situação de emergência pelo próprio governo, estamos encaminhando projeto de R$ 45 milhões. Para você ter uma ideia e o leitor também, com essas chuvas que aconteceram este ano, quatro grande voçorocas abriram na cidade. A do Sóter, a do Nova Lima, a do Jardim Carioca e a do Cidade Morena. Todas elas estão nesses projetos e a partir do momento em que o Governo Federal reconheceu a minha situação de emergência, é questão de ir lá, usar a força política da bancada federal para que a gente possa trazer os recursos.

Por força das condições climáticas o senhor foi obrigado a paralisar todas as obras estruturais em andamento. Quando pretende retomá-las?

As obras que nós estávamos tocando, praticamente todas relacionadas à infraestrutura (drenagem e pavimentação asfáltica) foram todas paralisadas. Não tivemos outra alternativa. Porque o serviço não rendia. O serviço não era compatível para ser feito. A partir do momento que a chuva parar, nós vamos retomar essas obras, concluí-las, entregar para a população.

O senhor sempre gozou de altos índices de aprovação popular. Nos últimos meses, o cidadão tem reclamado, com razão, da situação caótica das ruas e avenidas da cidade e pontos de erosão na periferia. O senhor não tem medo de perder confortáveis números por força dessa situação?

Temo, mas não tremo. Citei agora Santo Agostinho porque nunca me furtei de enfrentar, de peito aberto, todos os problemas. Sempre me expus na linha de frente, chamando para minha responsabilidade todas as adversidades inerentes à minha administração. É um momento difícil, mas perfeitamente superável porque tenho a fé em Deus de que, com as forças que Ele haverá de me dar e com a união da minha equipe, nós vamos reverter esse quadro para deixar Campo Grande cada vez mais bonita.

Quando o senhor fala em entregar essas obras, geralmente fixa a data de 26 de agosto, ou então a semana do aniversário da cidade. Esse cronograma continua em pé?

Vamos ter que rever. Porque só com essa chuvarada toda que aconteceu na cidade, nós perdemos de 30 a 40 dias de cronograma de obras. Em função disso, muitas coisas que deveriam ser entregues em agosto haverão de serem adiadas para os meses subsequentes.

No ano passado, a Prefeitura fechou com um déficit orçamentário de R$ 28 milhões, apesar do aumento na arrecadação com os tributos e nos repasses. Houve descontrole nas despesas?

Não houve isso. O que acontece são manobras orçamentárias de anulação de despesas que entram no ano subsequente, que você, por força da lei, acaba fazendo. O importante é você ver o balanço financeiro. E esse fechou de forma positiva em R$ 7 milhões.

O IPTU teve aumento expressivo para parte da população de Campo Grande. Há medidas para este mesmo grupo de contribuintes não se surpreender com reajustes expressivos, acima da inflação, nos próximos anos?

Sim. Assim como foi dito em entrevistas anteriores, nós vamos promover as reclassificações dos itens que existem para compor a base de cálculo do IPTU e, com isso, fazer com que o contribuinte possa, efetivamente, pagar uma taxa justa em função da valorização que o seu imóvel apresenta.

O terminal intermodal de cargas está praticamente concluído, mas ainda falta operacionalizá-lo. O senhor pretende ativar o porto seco na Capital até o final do seu mandato?

Pretendo. Para isso estamos lançando no Diário Oficial do município um chamamento público para as empresas interessadas a fim de que apresentem a melhor modelagem de operação inerente às características da nossa cidade e do nosso Estado.

A Deb’Maq pretende investir quase R$ 1 bilhão na Capital. No entanto, o grupo mineiro ainda não teve a proposta aprovada no Conselho de Desenvolvimento. A desapropriação da área, que pertence ao empresário Antônio Fernando de Araújo Garcia, é um problema para a instalação do empreendimento no pólo das Moreninhas?

A intenção da empresa em vir a Campo Grande se esbarra não só por uma mera aprovação do Conselho de Desenvolvimento Econômico, isso é o de menos. Qual o Conselho que não vai querer aprovar a vinda de uma empresa que vai investir R$ 1 bilhão numa cidade? O que acontece são dificuldades estruturais e financeiras pela qual passa a situação nacional inerente ao ramo em que eles operam e o fizeram a retardar a sua vinda a Campo Grande.

A Santa Casa terá uma solução, já que foi o primeiro grande desafio da sua gestão? Existe o risco de intervenção, considerada uma medida corajosa na época, se transformar num mico, já que o senhor pode concluir o mandato sem solucionar o problema do maior hospital do Estado?

A Santa Casa é um desafio e será um desafio. O que eu posso dizer a todos os leitores é que, bem ou mal, desde o primeiro dia que nós entramos lá, ela nunca deixou de cumprir a sua missão, salvando vidas, atendendo a alta complexidade do município e do Estado, fazendo por onde merecer o nome que tem. Porque lá é um local que chega pessoas dos mais diferentes locais, das mais diferentes regiões da cidade e do Estado e até mesmo de países vizinhos. E ela nunca deixou de atender ninguém, sempre acolheu a todos. E é a alta complexidade, a epidemia do trauma, que fez com que o perfil do doente que entra lá seja cada vez mais complexo e mais difícil de ser tratado. É a pessoa politraumatizada, com fraturas expostas, com traumatismo craniano, com ferimento por arma branca e arma de fogo, com várias escoriações, com queimaduras graves. Todas essas situações mais graves, nenhum hospital tem condição de receber a não ser a Santa Casa. Bem ou mal, no mês passado nós tivemos 215 mil atendimentos, 1,8 mil cirurgias e 54 mil exames. Ou seja, podem falar o que for, mas a Santa Casa, com a junta administrativa, está cumprindo o seu papel de atender a população carente.

As obras da Avenida Ernesto Geisel seguem sem conclusão, apesar dos recursos terem sido liberados pelo Governo Federal. O secretário prometeu adaptar as laterais do córrego, mas as chuvas continuam ampliando a cratera. Este problema será solucionado até quando?

Tivemos aprovada, no PAC 2, a obra para poder resolver a questão do Rio Anhanduizinho. Esse é um problema que existe. Dentro dele, desembocam as grandes bacias da cidade e vários córregos que acabam por chegar no Rio Anhanduizinho. Com toda essa questão do excesso de chuvas e pela impermeabilização do solo, por vários asfaltos feitos pela cidade afora, esse é um problema que vai ser enfrentado por nós e, com certeza, deverá ser enfrentado pelo próximo perfeito que entra. Para isso, fizemos um grande projeto e temos a satisfação de informar que ele foi incluído no rol dos projetos aprovados no PAC 2. Estamos apenas aguardando a liberação desse recurso para dar início à licitação e às obras.

O senhor pretende "envelopar" aquela região?

Não, ele será organizado o talude de forma consistente, firme, parta evitar o solapamento, desmoronamentos e, principalmente, endireitar as curvas para retificar o mais pronto possível e escoar a sua profundidade para poder aumentar a sua vazão. Basicamente, o sentido do projeto é esse.

Isso não depende de desapropriações na região?

Nenhuma. Porque o trabalho é todo feito no leito do próprio córrego.

Para encerrar, uma mensagem para o campo-grandense.

Uma mensagem de fé, de otimismo, de união e de muito trabalho. Essa é uma lição que o povo de Campo Grande me deu e vou saber honrar até o último dia do meu mandato. Uma coisa eu garanto: vou entregar Campo Grande mais bonita do que eu recebi.

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