Sábado, 17 de Fevereiro de 2018

Voto de protesto pode ajudar a eleger maus candidatos

27 SET 2010Por 07h:53

Maria Matheus

Votar em personagens folclóricos, excêntricos, nanicos “sem chances” de ganhar a disputa, ou, ainda, optar pelo branco ou nulo. O voto de protesto, longe de ser um voto “apolítico”, como encara o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é a forma escolhida por muitos eleitores para manifestar reprovação aos candidatos e à maneira como é conduzida a política. Mas, às vezes, o tiro pode sair pela culatra e o eleitor pode ajudar a eleger pessoas que não estão aptas a representá-lo e, inclusive, criminosos por trás de candidatos “bizarros” que atraem milhares de votos.
Quando o brasileiro votava por meio de cédula, os eleitores podiam escrever nomes que não eram de candidatos para traduzir o voto de protesto. Em 1958, um rinoceronte chamado Cacareco recebeu aproximadamente 100 mil votos para vereador de São Paulo, mais que qualquer candidato ou partido. O caso ficou tão famoso que Cacareco se tornou sinonônimo de voto de protesto.
Outro puxador de votos nulos foi Macaco Tião, que em 1988 recebeu mais de 400 mil para prefeito do Rio de Janeiro. Ele morreu em 1996, mesmo ano em que as urnas eletrônicas foram usadas pela primeira vez.
Enéas Carneiro, eleito deputado federal por São Paulo em 2002, também era considerado candidato do voto de protesto. Depois de concorrer três vezes a presidente da República e se tornar famoso com o bordão “meu nome é Enéas”, ele disputou vaga na Câmara dos Deputados e conseguiu mais de 1,5 milhão de votos. Foi o mais votado do País e elegeu outros cinco candidatos do antigo Prona, todos desconhecidos e com votação inexpressiva. Três deles obtiveram menos de 500 votos. Enéas morreu em 2007, vítima de leucemia.
Nas eleições deste ano, Francisco Everaldo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, lidera a corrida por vagas à Câmara dos Deputados em São Paulo. Usando deboches como “pior que tá num fica, vote Tiririca” ou “vote no abestado”, Tiririca pode atrair mais de um milhão de votos.

Representatividade?
A eventual votação expressiva de Tiririca pode ajudar a eleger três ou quatro candidatos da coligação, mesmo que obtenham votação nominal insignificante. Entre os que podem conseguir chegar à Câmara na carona de Tiririca está o mensaleiro Valdemar Costa Neto, que renunciou ao mandato de deputado federal em agosto de 2005 para não ser cassado.
No caso da eleição majoritária, o voto em nanicos, por protesto, pode ajudar a levar a eleição ao segundo turno, favorecendo o segundo colocado. O branco ou nulo, por sua vez, pode favorecer o primeiro colocado porque, ao diminuir o número de votos válidos, reduz também a quantidade de votos necessária para o favorito alcançar maioria absoluta (50% mais um) e definir a eleição em primeiro turno.
Para o secretário judiciário do Tribunal Regional Eleitoral, Hardy Waldschmidt, a votação não é o meio adequado para protestar. “Ali, nas urnas, o eleitor precisa realmente escolher o mais apto e não anular o voto”, aconselhou.

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