terça, 17 de julho de 2018

RETORNO

Volta de Baby Doc adiciona nostalgia da ditadura à tensa política do Haiti

18 JAN 2011Por ESTADÃO06h:00

Se a fuga em 1986 do ex-ditador Jean-Claude Duvalier foi comemorada por haitianos eufóricos dançando nas ruas, o retorno de Baby Doc no domingo à tarde foi marcado por poucas manifestações. Mas, nos bastidores, crescia a tensão política no Haiti diante da possibilidade de o governo René Préval anunciar se acatará as recomendações de um relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA) que altera o resultado do primeiro turno da eleição presidencial.

Depois de 25 anos de ausência do país, Duvalier passou o dia em um hotel no bairro de Petion Ville, para onde foi uma romaria de antigos aliados e funcionários de seu regime. Ele cancelou uma entrevista coletiva que estava programada para ontem à tarde, mas há expectativa de que o ex-ditador faça um pronunciamento a qualquer momento.

Apenas dez soldados do contingente indiano da tropa de paz da ONU protegiam o hotel onde o ex-ditador haitiano está com sua mulher, Véronique Roy. "Duvalier veio aqui porque queria ver como está a situação no país após o terremoto", explicou a repórteres Henry Robert Sterlin, que foi embaixador de Baby Doc em Paris, Madri e na Unesco. "Ele voltou ao Haiti porque é um cidadão haitiano e a Constituição o permite." Em seguida, completou: "Ele veio ajudar".

Não estão claros os motivos que levaram Duvalier a retornar ao Haiti nem quanto tempo ele pretende passar no país. Segundo fontes diplomáticas, ele teria passagem de volta à França marcada para amanhã.

Ontem, o ex-ditador encontrou-se com Gabriel Augustin, o número 2 do regime de seu pai, e com uma de suas principais assessoras, Gerard Destin. "Eu havia guardado dobrada no meu armário a bandeira preta e vermelha (símbolo do Haiti antes da queda de Duvalier)", afirmou Gerard aos jornalistas que estavam diante do hotel de Baby Doc.

Sob condição de anonimato, um diplomata latino-americano disse que a vinda de Baby Doc favoreceria o candidato Michel Martelly, que deve substituir o governista Jude Celestin no segundo turno contra a ex-primeira-dama Mirlande Manigat. "Martelly deve ser visto como uma espécie de cavalo de troia do duvalierismo", afirmou a fonte, em tom de alerta.

Embora Préval tivesse prometido que mandaria prender Baby Doc caso ele voltasse a pôr os pés no país, políticos e fontes ligadas à ONU consideram que a detenção do ditador causaria um novo foco de tensão no país - já às voltas com o lento trabalho de reconstrução após o terremoto do ano passado e o impasse que se seguiu à eleição de novembro.

"Quando ele (Baby Doc) estava no poder, o Haiti não sofria deste jeito", disse Laurent Doulou, de 29 anos, que decidiu ir até o hotel "cumprimentar" o ex-ditador. Doulou é o retrato de um Haiti muito diferente daquele deixado por Baby Doc em 1986. Com uma espectativa de vida baixa (68 anos) e uma alta taxa de natalidade (3 crianças por mulher), mais da metade dos haitianos não viveu sob o governo Baby Doc ou era criança quando ele fugiu para a França. "Mas todos sabem que o Haiti daquela época é muito melhor do que o de hoje."

Leia Também