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Campo Grande - MS, sexta, 19 de outubro de 2018

(Visão de futuro* – Carta escrita em 2002)

24 ABR 2010Por 06h:16
Taunay, 19 de abril de 2010

Excelentíssimo leitor:

Estou em Taunay, terra de índio bom. O lugar é paradisíaco. Portal do Pantanal, coração verde do planeta, recanto dos encantos sul-mato-grossenses.
Aqui, a grande Nação Terena se restabeleceu, reencontrando seu nicho sagrado, plantando em terra fértil sua cultura tantas vezes ameaçada de extinção. Tornou-se o primeiro município indígena do Brasil, não apenas para resgatar sua dignidade pátria afligida desde as “entradas e bandeiras”, mas para ajudar o país a reconhecer o índio como um primogênito. Um filho herói que lutou contra invasores e demarcou com o próprio sangue o território nacional.

Há um ano (em 2009), Taunay empunhou sua lança e bradou ao mundo sua liberdade, lutando, com arco e flechas de sabedoria e sob a égide democrática, para se tornar independente, emancipando-se de Aquidauana do qual era um acanhado distrito, pobre e submisso, discriminado às vezes pela cultura de alguns segmentos não-índios. Agora, imponente, promissor e maior centro de atração turística do Estado, Taunay é o município mais visitado do Brasil, por diversas comunidades do mundo. Sem desfigurar as características nativas das aldeias, algumas universidades, juntamente com órgãos governamentais e não-governamentais e organizações internacionais ligadas ao meio ambiente e aos direitos humanos, transformaram Taunay num verdadeiro laboratório de turismo e de pesquisa sobre a origem do homem na terra.

A sede do município terena está em festa, por que hoje, 19/04/2010 (segunda-feira), se comemora o seu primeiro aniversário de emancipação político-administrativa. Crianças, jovens e adultos, trajando tangas de puro algodão, com adorno de sementes naturais e penas de ema, trabalham na decoração do Centro de Tradições Terenas (CTT); anciãs produzem quitutes de mandioca e uma infinidade de iguarias típicas; flautas e tambores são afinados para acompanhar as danças, entre as quais a tradicional dança-do-bate-pau. Um cocar gigante enfeita a entrada principal da cidade. Logo adiante uma enorme estátua, talhada em madeira, aguarda para ser descerrada. É um busto do Visconde de Taunay que se inaugura junto com a praça do mesmo nome, em homenagem ao consagrado escritor carioca que passou por aqui, escreveu “A retirada da Laguna” e “Inocência” e que levou, pela primeira vez ao mundo, através da França, a literatura brasileira e as belezas do Pantanal.

As aldeias de Limão Verde, Córrego Seco, Água Branca, Bananal, Ipegue, Lagoinha, Embiruçu, São José, Morrinho e Colônia Nova, todas estão representadas na câmara legislativa de Taunay e, hoje, prontas para demonstrarem, na festa de aniversário, sua alegria, sua cultura, suas artes, sua produção agrícola. O município é forte produtor agropecuário e tem a maior indústria de peixes de cativeiro do Estado. Mas é, além de tudo, um pólo turístico rico em artesanato, trilhas ecológicas, monumentos históricos e, ainda, sede das grandes olimpíadas indígenas do país. O povo de Taunay, em torno de doze mil habitantes, é um povo feliz. Não há sequer analfabetos (todos os índios frequentam escolas e falam terena e português, com exceção dos guias turísticos, que são poliglotas).

Aqui existe o verdadeiro exemplo de desenvolvimento sustentável. A economia é abundante e aplicada com justiça social entre dez aldeias, suprindo todas as necessidades básicas da comunidade. A preservação do meio ambiente é palavra de ordem. As casas têm características próprias, rústicas e aconchegantes. As ruas são de chão batido, mas totalmente saneadas. A urbanização é bem diferente das cidades comuns, dando-nos a ideia de uma grande maloca, com muito conforto e bem-estar.

Este é o município de Taunay, um modelo de desenvolvimento e valorização sociocultural, que veio contrariar o pensamento e os interesses daqueles que não acreditam na liberdade, na inclusão social, na força e na cultura próprias de um povo.
Lamento ter que encerrar esta carta, mas o cheiro desses quitutes toneenses está irresistível, e o prefeito terena (que insiste em ser chamado de cacique) já está na praça do centro cultural, diante do povo e ao lado das demais lideranças indígenas, autoridades brasileiras e francesas, inaugurando a estátua de Taunay.

* (Visão de futuro é a projeção de um cenário futurista pensado a partir de uma ideia real presente, que se imagina daqui a algum tempo – técnica utilizada principalmente nos estudos de planejamento empresarial ou urbano.  O presente artigo foi escrito por José Pedro Frazão em 2002, antevendo uma possível criação do município de Taunay [na imaginação do escritor], cenário que não se concretizou neste ano, mas que continua alimentando o sonho terena. Para que uma visão de futuro se torne realidade é preciso uma ação equivalente, pois o próprio autor diz que “sonho sem ação é utopia”).

José Pedro Frazão
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