domingo, 22 de julho de 2018

ESPECIAL VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Violência contra a mulher tem aumento de 11% na Capital

19 JAN 2011Por VIVIANNE NUNES13h:19

“Eu não quero que ninguém viva o que eu vivi, nem que passe o que eu passei. Quero que a Justiça seja feita”. O depoimento é de uma mulher triste, assustada e muito depressiva que passou boa parte da vida sendo refém das agressões do marido, com quem viveu por 25 anos. A pessoa a quem vamos chamar nesta reportagem de Eva para resguardar sua identidade, revelou ao Portal Correio do Estado detalhes de uma vida cheia de mágoas e muita dor. Ela faz parte da estatística que comprova um aumento de 11,3% nos casos de violência contra a mulher registrados em Campo Grande comparando os anos de 2009 e 2010.

Uma história de torturas: "Eu já nem dormia de medo dele"

Eva apanhou por duas vezes e viveu uma vida de torturas psicológicas que descreve: “Ou eu sairia de lá morta ou iria direto ao hospício”, lembrou a dona de casa. “No começo era tudo bom, mas depois de um tempo ele passou a me maltratar e eu nem sei qual foi o motivo”, lamentou. A vítima da agressão conta que não teve filhos nessa relação com um homem 25 anos mais velho que ela. “Ele ameaçava me matar todos os dias. Arrumou outra mulher e queria que eu saísse de casa para ele viver com ela. A última vez em que discutimos ele pegou um facão e disse que faria picadinho de mim. Eu me assustei muito, falei que ia chamar a polícia para ele, mas no fundo eu tinha medo. Ele ia me matar mesmo e eu já não dormia de medo dele, achando que podia fazer algo contra mim”, relata com voz triste e embargada.

O 'inferno' chegou ao fim no dia em que ela se encheu de coragem e procurou a delegacia da Mulher. “Eles foram verdadeiros anjos na minha vida. Eu cheguei lá morta por dentro”. Eva deu entrada na documentação pelo divórcio e apesar do tratamento que recebia do marido teve que apelar ao letígio. “Ele não sabia o que queria. Por vezes queria o casamento, outras vezes não queria mais, eu quase fiquei louca”, lembra. No dia primeiro de outubro ela conseguiu se separar na Justiça, mas ainda continuou por dois meses morando com o agressor. “Eu não tinha para onde ir e o juiz me deu este prazo para procurar outro lugar”, explicou. “Agora eu vivo em paz porque eu consegui sair de casa e ele nem faz ideia de qual é meu endereço”, afirmou.

  

A vítima que demorou a tomar coragem de denunciar agora quer levar o caso adiante. “O juiz diz que eu não tenho provas porque éramos apenas eu e ele, não tinha testemunha. Ele [o marido] me mandou retirar a queixa mas eu não vou fazer isso, quero que ele pague pelo mal que me causou todos esses anos”, diz. Agora só, com uma complicação no joelho, ela não pode trabalhar mas conseguiu na Justiça o direito a uma pensão alimentícia. “Eu estou tentando me recuperar. Sei que tive muita sorte por não ter sido morta”, finalizou.

À procura de ajuda

Ângela [outro nome fictício] teve um pouco mais de sorte ao denunciar o marido. Ela pôde, através da ajuda do Conselho de Políticas Públicas para a mulher, da prefeitura de Campo Grande, retomar sua vida e seu casamento junto dos filhos de 8, 12 e 16 anos. “Estou casada há 16 anos e durante esse tempo ocorreram várias situações, mas nunca tinha tentado procurar ajuda. Ele bebia muito e eu estava sempre passando por constrangimentos. Mas a última vez ele agrediu nosso filho de 12 anos e eu o denunciei”, desabafou. Ela conta que foi até a delegacia da mulher e teve início um trabalho de acompanhamento psicológico da família. “Ele era muito bom, mas sem beber, quando bebia tornava-se um homem violento. Hoje ele deixou o vício”, afirma. De acordo com ela, a partir deste momento as coisas mudaram dentro de casa e hoje em dia a família vive bem. “Se ele não melhorasse nós não iriamos levar essa vida adiante”, concluiu.

Políticas Públicas

No ano de 2009 foram registrados 5.605 ocorrências de violência contra a mulher na Capital. Este número saltou para 6.239 no ano seguinte e para a coordenadora de Políticas Públicas para a Mulher, Tai Loschi, a construção de uma rede de enfrentamento na última década possibilitou o aumento das denúncias, não dos casos de violência que, segundo ela, “sempre existiram”. “Acontece que todo esse trabalho de enfrentamento fortalece as vítimas, encoraja a denunciar por que elas sabem que serão acolhidas”, explicou.

De acordo com ela até os postos de saúde receberam treinamento especial nos últimos meses para que saibam lidar com as mulheres. Em novembro, segundo ela, foram treinados 720 agentes de saúde para que estejam preparados para o atendimento às mulheres. “Quem tiver alguma queixa poderá procurar o conselho da mulher dizendo que não recebeu tratamento adequado”, finalizou .

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