Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

Furacão

Vídeo provoca crise política histórica

22 SET 2010Por 06h:47

Maria Matheus

Cinco vídeos divulgados ontem no YouTube deram início a um verdadeiro terremoto político-institucional em Mato Grosso do Sul. Agindo como espião da Polícia Federal, o jornalista Eleandro Passaia, ex-assessor do prefeito de Dourados Ari Artuzi (sem partido), gravou o deputado e primeiro-secretário da Assembleia Legislativa, Ary Rigo (PSDB), fazendo “confidências trágicas”. Em resumo, Rigo garante que por meio do Poder Legislativo seriam repassados mensalmente ao Tribunal de Justiça R$ 900 mil e ao Ministério Público, R$ 300 mil. Fala, também, que nenhum deputado recebia menos de R$ 120 mil por mês. Ao governador do Estado, André Puccinelli (PMDB), a Assembleia Legislativa devolvia R$ 2 milhões em espécie, segundo o parlamentar tucano. Rigo também afirma ter influenciado a decisão do desembargador Claudionor Abss Duarte de negar o pedido de prisão de Artuzi antes de ser deflagrada a Operação Uragano, em 1º de setembro.

“Nós devolvíamos R$ 2 milhões em dinheiro para o André; 900 (mil) nós dávamos para os desembargadores do Tribunal de Justiça e 300 (mil) para o Ministério Público”, diz o deputado, em um dos vídeos. “Cortou tudo. Nós vamos devolver R$ 6 milhões para o Governo”. O valor corresponde a 40% do duodécimo que o Executivo repassa à Assembleia Legislativa. Oficialmente, o Governo repassa pouco mais de R$ 15,1 milhões mensalmente ao Legislativo.
Conforme o deputado, a Lei da Transparência, que obriga a divulgação em tempo real de todas as receitas e despesas públicas, dificultou o repasse de verbas extra-oficiais. “Lá na Assembleia nenhum deputado ganhava menos de R$ 120 mil. Agora, os deputados vão ter que se contentar com R$ 42 (mil)”, comentou o deputado.

Tráfico de influência

Rigo conta que estava com o desembargador Claudionor Miguel Abss Duarte e com Coronel Ayres, chefe de gabinete do deputado estadual Londres Machado (DEM), quando foi informado que Ari Artuzi poderia ser preso por desvios de verbas na prefeitura. O diálogo indica que ele agiu para evitar a prisão do prefeito de Dourados.

“Estávamos na frente do Claudionor quando o Alziro ligou no meu telefone às 11h da manhã e falou: ‘olha, tá um zumzum aqui que o Artuzi vai ser preso’. Digo: há meia hora atrás ia, agora já não vai mais”. O próprio vídeo explica que o pedido de prisão de Artuzi foi feito pelo então procurador-geral de Justiça, Miguel Vieira, em março deste ano.
Questionado por Passaia se a situação do prefeito ficaria complicada “agora, com esse negócio de não poder mais dar dinheiro para o Ministério Público”, Rigo diz que Artuzi terá de “se emendar” para evitar a prisão.

“Ele tem que se emendar direitinho, né? Porque o Ministério Público, o que tinha que fazer, já fez no passado. Pediu a denúncia”, opinou o deputado. “Se ele cometer alguma besteira agora eles vão pra cima, porque eu não tenho mais como dar dinheiro. Primeiro que saiu o Miguel, entrou uma turma nova”, comentou. Miguel Vieira chefiou o Ministério Público de maio de 2008 a maio deste ano, quando Paulo Alberto de Oliveira assumiu a Procuradoria-Geral de Justiça.
“E essa turma nova não aceita?”, perguntou Passaia. “Aceitar, aceita. Mas tem que ir devagarinho, em primeiro lugar. Em segundo lugar, onde que eu vou arrumar, agora com essa lei?”, respondeu o tucano. O deputado reclamou que a Lei da Transparência obriga a Assembleia, assim como os demais Poderes, a publicar na internet “o saldo diário”, “cheque por cheque” e justificar com o que o dinheiro foi gasto.

Rigo conta que, “além de segurar juridicamente” a prisão e o afastamento de Artuzi, aproximou o prefeito do governador do Estado, fazendo com que “André acreditasse” em Artuzi. Até o final do ano passado, Artuzi e Puccinelli eram adversários políticos.

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