domingo, 22 de julho de 2018

Veto a emagrecedores preocupa médicos

17 FEV 2011Por estadão16h:33

Endocrinologistas que tratam da obesidade estão preocupados com a provável proibição de medicamentos usados para emagrecer, conforme o Estado revelou ontem. Para eles, a retirada dessas drogas do mercado pode ter duas consequências: a procura por tratamentos clandestinos com sibutramina e o aumento de pessoas em busca de cirurgias de redução de estômago.

A retirada das drogas anorexígenas do mercado é praticamente certa - o tema será discutido em audiência pública na próxima semana. O argumento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é que os riscos desses medicamentos não superam os benefícios da perda de peso que eles proporcionam.

No final do ano passado, a própria agência proibiu a comercialização e a importação de dois suplementos alimentares, vendidos como naturais, mas que continham sibutramina em sua composição. Esses compostos eram facilmente adquiridos em farmácias ou na internet.

Responsável pelo laboratório de investigação em diabete e metabolismo da Unicamp, Bruno Geloneze está preocupado com a possibilidade de os pacientes procurarem tratamentos "pseudonaturais". Para ele, a proibição dos emagrecedores "abre uma brecha" muito grande para o mercado clandestino.

"Sou francamente favorável à retirada dos anfetamínicos do mercado. Mas não há razão para tirar a sibutramina. Isso só vai aumentar a venda de drogas clandestinas pela internet, contaminadas com derivados anfetamínicos, sibutramina e diuréticos. Além de não serem eficazes, causam muito mais riscos", diz.

A opinião é compartilhada pelo endocrinologista Amélio Godoi Matos, chefe do Instituto Estadual de Diabete e Endocrinologia da PUC-RJ. "Já convivemos todos dos dias com uma série de tratamentos prometendo falsos milagres. Basta abrir a internet. E a Anvisa não tem controle nenhum sobre esses casos", diz o médico.

Cirurgias. Não há dados oficiais sobre o número de pessoas obesas na fila de espera para a realização da cirurgia de redução de estômago.

Hoje, o procedimento é indicada apenas para pacientes com índice de massa corporal (IMC) acima de 40 - ou acima de 35 com comorbidades como diabete ou hipertensão. Mesmo assim, muitas pessoas com IMC abaixo de 35 são operadas.

Segundo o endocrinologista Alfredo Halpern, chefe do grupo de obesidade do Hospital das Clínicas e professor da USP, só no ambulatório do HC cerca de 500 pessoas estão em tratamento para controle da obesidade e mais de mil aguardam cirurgia.

"O tempo de espera para cirurgia é de seis anos e, a cada ano, essa fila aumenta. Se tirarmos os remédios, muitos pacientes vão engordar e também terão indicação cirúrgica. O que o governo vai fazer? Aumentar o número de centros cirúrgicos?"

Na Unicamp, a fila de espera é de cerca de cinco anos. Na Santa Casa de São Paulo, o tempo médio de espera é de oito anos.

"Quem não procurar tratamentos milagrosos vai migrar para a cirurgia", avalia Matos.

O cirurgião Marcos Leão Vilas-Boas, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, diz ser contra a proibição do uso dos medicamentos. "Acho exagerada até mesmo a resistência que já existe desde o ano passado."

Segundo ele, é possível que, sem tratamento medicamentoso, haja uma procura maior por cirurgias. "Não dá para operar todo mundo. O número de pessoas com indicação que não foram operadas ainda é muito grande."

Em tratamento. A dona de casa Maura Soares da Silva, de 51 anos, faz tratamento contra a obesidade há três anos. Diabética e quase 40 quilos acima do peso ideal, conta que só conseguiu emagrecer com ajuda da sibutramina.

Preocupada, diz não saber o que fazer caso o medicamento seja proibido. "Antes eu tomava 70 unidades de insulina. Hoje tomo apenas 12. Se proibirem a sibutramina vou engordar tudo de novo e os problemas vão voltar."

A professora Ana Aurélia Stedile Portella, de 34 anos, também está preocupada com a possível proibição. Ela faz tratamento há três anos e conseguiu perder parte dos 24 quilos extras. Hoje, toma a sibutramina dia sim dia não, como controle. "Antes do remédio, tentei todas as dietas possíveis e não adiantou. Só consegui emagrecer com ajuda do medicamento", afirma.

PARA ENTENDER

Remédio combate fome e dá saciedade

Os inibidores de apetite atuam em uma região do cérebro chamada hipotálamo, onde estão localizados os centros da fome e da saciedade. No caso dos derivados de anfetamima, como mazindol, femproporex e dietilpropiona, a ação ocorre na fenda sináptica existente entre os neurônios. Essas drogas bloqueiam a captação de dopamina e noradrenalina. Quanto maior a quantidade dessas substâncias circulando na fenda, menor a sensação de fome. Já a sibutramina atua em duas regiões do sistema nervoso: no centro do apetite e no da saciedade. Ela diminui a captação de noradrenalina e de serotonina.

Leia Também