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Imunização

Vacinas do futuro: menos dor e mais versatilidade

11 ABR 2011Por IG22h:00

Considerando isoladamente todas as vacinas disponíveis na rede pública de saúde, uma criança receberá antes dos seus 2 anos de vida nada menos do que 40 injeções.

Caso as previsões dos cientistas se tornem realidade, até a vida adulta desta mesma criança, uma série de outras novas doses ira cruzar seu caminho, mas de forma bem menos dolorida e mais versátil.

Os pesquisadores estão empenhados em trazer para as “vacinas do futuro” duas importantes características. A primeira, já com alguns sucessos alcançados, é fazer com que uma mesma fórmula proteja do maior número possível de doenças.

“Combinar múltiplas vacinas em uma só aplicação não é só conforto, é necessidade. Garante menor custo e maior adesão do público”, afirma a médica pediatra Isabella Ballalai, vice-presidente da Associação Brasileira de Imunizações.

O segundo foco dos cientistas é alcançar mecanismos de dispensação mais fáceis – que vão além das atuais seringas e gotinhas – como sprays, microagulhas e gel. O objetivo, neste caso, é ampliar a segurança das vacinas, consideradas pelos especialistas as grandes responsáveis por interferir no curso de doenças mundiais, ao bloquear mortalidade em massa assistidas nos séculos passados e ampliar a expectativa de vida da população.

Segundo explica o professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Comissão de Imunização do Estado de São Paulo, Gabriel Oselka, a erradicação e controle de doenças, conquistados com os imunizantes nos últimos anos, fizeram com que os possíveis efeitos colaterais das doses ganhassem destaque no cenário da proteção.

Você sabia que os bebês prematuros precisam de um calendário de vacinação específico?

Se na época de Oswaldo Cruz (médico que coordenou a primeira vacinação em massa em 1904 contra varíola e febre amarela), reações adversas como febre ou inchaço no local após a aplicação das doses nem eram considerados diante das avassaladoras epidemias, hoje estes efeitos incomodam mais e a ciência quer eliminá-los. “Agora ninguém quer nem fazer careta ao receber a injeção”, brinca Oselka.

Este novo figurino – versatilidade e dispensação indolor – dos fármacos do futuro é almejado sem abrir mão dos estudos para produzir vacinas contra doenças ainda não contempladas.

“Eu ainda espero poder trabalhar com vacinas contra malária, HIV, hepatite C e câncer, dengue, todas já com estudos promissores iniciados”, afirmou Maurizio de Martino, diretor do Departamento de Saúde da Mulher e da Criança da Universidade de Florença, durante a reunião realizada no final de março na Itália para discutir os avanços das vacinas mundiais.

Espalhadas pelo mundo, são em média 300 pesquisas de novas vacinas em andamento, entre elas para o Alzheimer e até tabagismo. “Existe uma linha de pesquisas não só de vacinas preventivas, mas também de tratamento”, completa Ballalai.

História e evolução

“Para projetar as vacinas dos próximos anos, é preciso olhar para o passado”, afirmou o diretor do setor de vacinas da Agência de Proteção à Saúde do Reino Unido, Jamie Findlow, durante o congresso italiano. Foi desta forma com que os cientistas conseguiram encontrar um novo foco de mudança para os imunizantes que vão chegar ao público no futuro.

A maior parte das vacinas hoje oferecida na rede mundial é feita com o vírus ou bactéria atenuados, os próprios causadores das doenças. Quando injetados no corpo, ainda que mais “fraquinhos”, eles despertam proteínas que criam anticorpos às enfermidades. Em alguns casos, a proteção contra a doença dura a vida toda (como a catapora), em outros há prazo de validade (como a febre amarela, com duração de 10 anos).

É este molde de ação que pode provocar em uma pequena parcela dos imunizados reações como febre ou sintomas em menor proporção da doença a ser evitada pela vacina. O infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Paulo Olzon, diz que agora a proposta dos laboratórios é, em vez de atenuar os agentes infecciosos, conseguir isolar as proteínas que “acordam” os anticorpos protetores e, então, colocá-las em contato com as pessoas.

“Isso despertaria uma memória imunológica de uma forma bem mais segura”, explica Olzon ao citar que, durante a sua infância, ele foi protegido contra catapora, sarampo e caxumba de uma maneira arcaica, mas muito comum no passado.

“Sempre que a minha mãe sabia que um primo estava doente, falava para eu ficar perto dele. Assim eu pegaria a doença na infância, em um momento mais seguro, e nunca mais teria contato com ela na vida adulta”, lembrou.

A farmacêutica Novartis, uma das principais fabricantes de vacinas mundiais, foca seus estudos em vacinas de DNA e no isolamento de proteínas para encontrar as doses perfeitas para doenças como meningite – a rede acaba de lançar uma vacina “4 em 1” contra as bactérias causadoras da doença meningocócica.

Mas esta tecnologia de ponta também é utilizada pelo laboratório em pesquisas para produzir doses contra as chamadas doenças negligenciadas. Na cidade de Siena (Itália), uma das fábricas tem um centro só voltado para elas e mais de 30 patologias são pesquisadas. Potenciais vacinas contra salmonella, tifo e diarreia são as que têm resultados mais avançados.

Pés no chão

Indolores, versáteis, feitas de proteínas ou de DNA, as vacinas do futuro ainda fazem parte dos projetos e anos de pesquisas são necessários para que virem realidade.

“Na boca do forno, por exemplo, não há nenhuma vacina de DNA para sair e também nenhuma projeção a curto prazo para doses contra doenças crônicas (como diabetes e hipertensão, doenças cogitadas)”, afirmou o expert Gabriel Oselka.

Para justificar a cautela com que trata o assunto, o especialista cita o exemplo do HIV. “Lá nos anos 80, já falávamos que em dez anos, em previsões pessimista, teríamos uma vacina contra aids. E até agora não há. Evoluímos muito, temos conhecimentos importantes, mas também os pés nos chão”, diz Oselka.

Ainda que na forma de promessa a vacina contra aids já promete revolucionar o mundo. Os pesquisadores da FioCruz fizeram as contas e, caso fosse implantada em 2015, a dose contra o HIV precisaria de 25 anos para reduzir em 80% as infecções na população adulta.

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