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Campo Grande - MS, terça, 16 de outubro de 2018

Uma história de guerra e paz nos primórdios do nosso comércio

29 ABR 2010Por 06h:30
 Por volta de 1887, a população vivia da produção própria, sendo comum a troca de mantimentos, frutas, legumes e mercadorias entre as famílias aqui residentes.
Apenas uma pequena botica do precursor do nosso comércio, Joaquim Vieira  de Almeida, funcionava no arraial.
Logo surgiram os primeiros “Bolichos”. Pequenos armazéns com mercadorias trazidas de Corumbá, onde chegavam, vindas da Argentina e Rio de Janeiro, em demoradas viagens de navio.
Para conhecimento dos mais novos, “bolicho” é uma denominação de influência gaúcha e fronteiriça que se adotou desde os primórdios do arraial. E não adiantou nada os portugueses terem trazido o “Empório” para suas placas. As mamães sempre mandavam a gente ir buscar no bolicho.
As primeiras destas casas datam de 1895 e eram de propriedade de Bernardo Franco Baís, Antônio Gomes Veado, Felisberto Loureiro, Manoel Inácio de Souza, Sebastião Lima e Aman Scaffi, primeiro árabe que a história registrou por aqui.
Logo depois, abriram-se grandes armazéns de secos e molhados, como os de Vasquez & Cia, Cândia & Moliterno, Vieira & Damas Ltda .
Na primeira década  do século vinte, começaram a chegar por aqui os famosos mascates,  em sua maioria árabes, que  traziam em carros e muares muitas mercadorias para venderem à pequena população. Sua presença começou a incomodar o comércio, pois desviava a clientela para as novidades que faziam sucesso,  principalmente entre as moças da vila.
As reclamações dos comerciantes fizeram eco na novata Câmara Municipal e seu presidente Jerônimo Paes de Sant’anna apresentou em janeiro de 1905 projeto, instituindo a exorbitante taxa de quatro contos de réis para os mascates. A importância era equivalente ao valor de 160 vacas.
Começou aí a “guerra” que os sabidos “turcos” ganharam, ao driblarem as ordens oficiais, instalando pequenos pontos comerciais que viriam a ser as melhores lojas da cidade.
Em julho do mesmo ano, os comerciantes haviam denunciado as artimanhas dos “inimigos”, que deixavam suas lojas e continuavam a vender no sistema porta a porta.
Um deles era meu pai, Eduardo Contar, que montou uma loja com Salomão Saad, na Rua 26 de agosto, e nunca ficou atrás do balcão esperando clientes.
Até 1908, os primeiros árabes chegaram como mascates e acabaram se estabelecendo por aqui.
Salomão Saad, Eduardo Contar, Moyses Sadalla, Moises Maluf, Maarão Abalen, Salomão Mamud e os irmãos Cesário e Abel Calarge foram os precursores da grande leva de turcos, sírios e libaneses que chegaria depois, atraída pela estrada de ferro que transformaria Campo Grande, em pouco tempo, num importante centro comercial da região.
No início, havia uma certa antipatia pelos estrangeiros pois, em 1909, o intendente Sebastião Lima, que era também comerciante, triplicou os valores dos impostos para mascates, visando a enxotá-los da vila.
A maioria já estava estabelecida e outros que chegavam iam também se enquadrando à nova realidade.
Mal sabia o alcaide que aqueles seriam os esteios do grande centro comercial em que Campo Grande se transformaria ao longo dos anos.
Finalmente, reinou a paz entre bolicheiros e mascates que se uniram na costrução da cidade.
Houve tempo em que a Rua 14 de Julho era conhecida como a “rua dos Turcos” pela esmagadora presença deles no comércio local. Eram oito lojas, em cada dez existentes ao longo da via central.
Ai, Mahmud casou-se com Maria,  Samira casou -se com Antônio e tudo acabou em progresso.

Do livro: “A Babel que deu certo”, de EDSON CARLOS CONTAR
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