quarta, 18 de julho de 2018

Turismo

Uma cidade que vale ouro

4 NOV 2010Por SCHEILA CANTO00h:25

Em 1980 os olhares do mundo todo se voltaram para Ouro Preto, quando a Unesco declarou a cidade como Patrimônio Cultural da Humanidade, reconhecendo o mérito que tinha recebido em 1933 quando foi decretada como Cidade Monumento Nacional. Esta cidade que respira história desde seus primórdios tem em suas ladeiras e vielas o retrato fiel de como eram as construções do século 18 e 19. Na semana passada os ouro-pretanos, moradores da ladeira Santa Efigênia tiveram algo mais para comemorar, além dos 30 anos do tombamento da cidade. É que a fachada de 42 casas desta ladeira, que é um dos cartões-postais da cidade, recebeu o multirão de pintura do projeto "Tudo de cor para você", da Coral, da AkzoNobel, concluindo assim o trabalho que foi iniciado no começo do mês, no total de 8 mil metros quadrados.

A ladeira de Santa Efigênia foi escolhida pelo projeto por ser uma área de preservação rigorosa, assim a inspiração da paleta de cores usadas para pintura foi obtida por meio das obras de Manuel da Costa Ataíde, um dos mais brilhantes artistas do barroco mineiro ao lado de Aleijadinho. “Estas casas não passaram só por uma pintura simplesmente. Elas tiveram recuperação histórica de suas fachadas, respeitando exatamente seus padrões arquitetônicos do século 18. Para tanto, tivemos a parceria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e prefeitura da cidade”, disse o coordenador do projeto Marcelo Abreu.

A professora e moradora da rua, Semir Emiliano, conta que o projeto deixou os moradores mais animados, pois todos sentiram-se privilegiados ao receber a pintura de suas casas. “Ouro Preto tem muitos lugares lindos e importantes, foi uma honra ver nossa ladeira ser contemplada. Aqui somos uma grande família, todos os vizinhos são parentes de algum grau. Minha avó, minha mãe, minhas tias, primos, todos moram aqui. Minha casa voltou a ser legítima e descobri isso no quadro que tenho na minha sala”, aponta Semir.

Segundo Carlos Piazza, diretor de comunicação da Akzo Nobel para América Latina, o projeto despertou na comunidade de Ouro Preto o senso de preservação das fachadas originais e da história da cidade, além de recompor sua iconografia arquitetônica.

Vale lembrar que o mestre Ataíde, além de pintor, foi entalhador, dourador, arquiteto, músico e professor e em suas obras são as cores vivas que chamam a atenção, além de sua acentuada preferência pelo azul, ressalta Piazza, numa visita com os jornalistas na Igreja São Francisco de Assis, apontando a pintura do teto, realizada em 1812.

Sobre o projeto
Iniciado em agosto de 2009, o “Tudo de cor para você” é o principal projeto socioambiental da AzkzoNobel. Mais de 25 mil litros de tintas já foram usados para renovar mais de 50 mil metros quadrados de paisagens de comunidades em diferentes regiões do País, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Olinda, Porto Alegre e Ouro Preto.

Segundo o coordenador do projeto, o objetivo é “colorir” todas as cidades brasileiras, combatendo a degradação de áreas e principalmente levando à autoestima e qualidade de vida à comunidade. “O projeto une moradores, voluntários e mais de 700 funcionários em uma grande onda de pintura e conservação das áreas escolhidas”, aponta Marcelo Abreu.

A escolha do local é baseada em vários critérios que vão desde seu valor histórico e cultural até o envolvimento da comunidade em geral. Para se inscrever é preciso mandar uma carta explicando porque sua cidade, seu bairro, sua rua merecem o projeto “Tudo de cor para você”. Mais informações no site www.tudodecorparavoce.com.br.

Terra de inconfidentes e heróis
Ouro Preto (Vila Rica), uma cidade marcada pela efemeridade do poder e a ambição pelo metal precioso no século 18. Em seu auge, o ouro vazava por todas as frestras, mas como em tudo na história onde há riqueza, a disputa pelo poder é cruel, e isso não é diferente nesta porção de terra mineira. A saga dourada deixou grandes legados na história do Brasil, a principal delas foi a Inconfidência Mineira. Andar pelas estreitas ruas de Ouro Preto é uma verdadeira aula a céu aberto. A cidade é repleta de belezas naturais ou construídas pelas mãos do homem.

Terra de Tiradentes, de Aleijadinho, Chico Rei e tantos outros, do mártir que foi enforcado e esquartejado ao mitológico escravo que virou rei, estes personagens sintetizam a falência do conceito bem e mal. Foi o feio que produziu o belo, o monstro que produziu anjos... O mitológico Chico Rei, monarca na África ele chegou em Minas como escravo com toda sua família, trabalhou nas minas, comprou sua liberdade e a de parentes.  

Em Ouro Preto as paredes falam, cantam seus versos, sufocam a dor. Revelam mais que sua aparente arquitetura. Uma cidade de fé interessada e inconfidentes heróis. Por tudo isso, vale a pena uma visita a esse patrimônio. Com muita disposição e calçados confortáveis é possível visitar pelos cinco de suas principais igrejas em dois dias. Mas, se quiser realmente conhecer cada ladeira desta cidade é preciso preciso mais tempo. 

* Jornalista viajou a convite da AzkoNobel para Ouro Preto

Leia Também