quinta, 19 de julho de 2018

Trabalhos na Estação Ferroviária começam pelo destelhamento

15 SET 2010Por 13h:45
     O destelhamento das áreas do pátio e de embarque/desembarque é o primeiro trabalho executado na Estação Ferroviária de Campo Grande que passará durante sete meses por um processo de restauração. A Estação Ferroviária é o edifício mais emblemático do complexo em Campo Grande e um dos mais importantes também para o estado de Mato Grosso do Sul, tanto que foi tombado nos três níveis (municipal, estadual e federal).
        
        Os recursos na ordem de R$ 2,5 milhões para a restauração são provenientes do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) das Cidades Históricas. A restauração do Complexo Ferroviário é uma das ações propostas no Plano de Revitalização do Centro de Campo Grande - que se transformou em Lei municipal (Lei Complementar n. 161, de 20 de julho 2010).
        
        Pesquisas e entrevistas
        A cidade de Campo Grande teve seu desenvolvimento marcado pela chegada da EFNOB (Estrada de Ferro Noroeste do Brasil), que induziu sua urbanização, influenciou o desenho da malha urbana e a ocupação do espaço nas proximidades da linha férrea, especialmente, pelo seu peculiar Complexo Ferroviário, com diversas tipologias de edificações.
        
        Os estudos que contribuíram para planejar a restauração do prédio da Estação Ferroviária foram conduzidos nos meses de abril e maio pelos técnicos do Planurb (Instituto Municipal de Planejamento Urbano) em conjunto com a Seinthra (Secretaria Municipal de Infraestrutura, Transporte e Habitação), Fundação Municipal de Cultura (Fundac), com o acompanhamento do Iphan/MS. A metodologia de estudo usada consistiu em pesquisa bibliográfica sobre os imóveis da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em especial a Estação e entrevistas. Em primeiro lugar, foi feito o levantamento da história da ferrovia, com fotos e plantas que pudessem esclarecer as diversas etapas de construção pelas quais o local passou.
        
        De acordo com a diretora-presidente do Planurb, Marta Lúcia da Silva Martinez, as fotografias antigas, mesmo em número reduzido, contribuíram, de forma expressiva, para conhecer alguns pontos da edificação original. O caminho seguinte foi visitar a comunidade em busca de informações. Um antigo funcionário da Rede Ferroviária entrevistado pelos técnicos ajudou a trazer novos dados sobre o prédio. Por último, foi realizada a prospecção pictórica (investigação das pinturas), o que permitiu a revelação das paredes originais. Com a análise de todos os subsídios colhidos, chegou-se a uma proposta de restauração.
        
        A diretora do Planurb explica que os estudos mostraram que as aberturas originais da fachada principal da Estação Ferroviária eram todas em madeira e vidro e de tamanhos maiores. No entanto, não se chegou a precisar em que momento foram substituídas por esquadrias de ferro e vidro, de tamanhos menores. O relógio, antes redondo, foi trocado por um quadrado. ?Como não é intenção recriar um estilo e sim preservar a história e entende-se que esses elementos já estão incorporados ao imaginário que a população tem sobre a Estação, propõe-se no projeto que sejam mantidos?, explica.
        
        Flexibilização do uso
        A proposta de intervenção segue uma das principais tendências de restauro na América Latina, também praticada no Brasil. Ela busca integrar o monumento histórico na vida contemporânea, flexibilizando seu uso para torná-lo viável, ou seja, sustentável sem, no entanto, perder o caráter documental do edifício. De acordo Marta Martinez, a restauração do Complexo Ferroviário garante não só a preservação de um momento da história de Campo Grande, permitirá também o desenvolvimento econômico, social e cultural por meio da promoção do turismo cultural na cidade como um atrativo de lazer e cultura para os campo-grandenses e turistas.
        
        O projeto de revitalização da Estação Ferroviária vai manter o padrão histórico e arquitetônico da época e será transformado em um espaço público que vai resgatar a memória, valorizando o patrimônio imaterial da Ferrovia. A idéia é que ex-ferroviários, moradores da Vila Ferroviária e campo-grandenses participem ativamente na preservação da memória, compartilhando seus conhecimentos, de diferentes maneiras (depoimentos, palestras, visitas guiadas) e participando na gestão do espaço. Para isso, segundo a diretora, será feita campanha chamando a população a participar do espaço com doações de objetos alusivos à ferrovia e com a valorização de sua história.
        
        O uso do prédio após a restauração tem a seguintes propostas: criar ambientes divididos em setores de ?Espaço Ciência?, onde serão expostos os objetos restaurados e de ?Espaço História?, com projeção por meio de data show da história da ferrovia em Mato Grosso do Sul e Campo Grande, e de seus participantes, como depoimentos de ex-ferroviários. A estação abrigará um centro de documentação museológica com espaço de exposição de mapas e fotos e consulta local de documentos. O centro de documentação terá ainda oficina para restauração documental.
        
        Lazer cultural
        A Estação Ferroviária terá um setor de lazer cultural que se destinará à valorização da cultura local, diversão e interação do visitante (veja ilustração). A intenção é que o público vá continuamente ao local, use os espaços e se aproprie do lugar como patrimônio da cidade. O projeto destina um centro de atendimento ao turista no saguão principal, que disponibilizará a agenda de eventos culturais de Campo Grande e o acesso a guichês da bilheteria onde serão vendidos ingressos dos eventos culturais na cidade, bilhetes para viagem no Trem do Pantanal e, futuramente, para o trem cultural com destino ao Centro de Belas Artes, com embarque na própria Estação.
        
        Outro espaço planejado para a Estação Ferroviária irá abrigar uma loja para venda de produtos culturais e regionais. O visitante poderá adquirir objetos de artesanato, postais, lembranças diversas, erva-mate tereré e muitos objetos alusivos à história da cidade. No projeto consta ainda a implantação de uma lanchonete cultural e de um pátio coberto para eventos variados, como feiras de antiguidades, de livros, de artesanato e outras manifestações culturais ao ar livre.
        
        Outro local importante, segundo a diretora do Planurb, será a área multiuso, localizada no espaço de embarque e desembarque, com flexibilidade de utilização para exposições temporárias ou auditório com cadeiras móveis. Esse ambiente terá estrutura metálica e fechamento em vidro, o que vai possibilitar integração com o pátio coberto. O uso deste local será destinado ao desenvolvimento de ações de educação patrimonial que vão disseminar a ideia da preservação e valorização da cultura local.
        
        O antigo e o moderno
        A solução da intervenção não deve ser marcada pela extravagância nem pelo caráter simplório, ambas consideradas prejudiciais ao monumento. Marta Martinez avalia que é nesse equilíbrio que se enquadra a solução adotada. Buscou-se uma síntese entre preservação do passado e atendimento às necessidades contemporâneas. ?As intervenções vão ser percebidas, o que irá possibilitar distinguir o autêntico do novo?, argumenta.
        
        A partir desse estudo, recorreu-se, no projeto,  à utilização de materiais contemporâneos, como o vidro temperado, nas novas aberturas, que devido à transparência ainda é de pouca interferência visual. Por exemplo, entre a bilheteria e o acesso da loja, sugere-se uma porta de correr, em vidro temperado, que permite ao público contemplar o espaço da bilheteria e seu mobiliário sem, contudo, terem acesso. Como é de conhecimento, foram sendo acrescentados no decorrer dos anos, novos ambientes ao projeto original da Estação. O projeto indica a remoção de alguns elementos que não apagarão a memória histórica, por existirem memórias paralelas.
        
        
        Itens propostos no projeto:
        As pesquisas, estudos e projetos foram conduzidos pelos arquitetos Zuleide Higa e Marcelo Oliveira, da Seintrha, Ellen Rodovalho, da Fundac (Fundação Municipal de Cultura) e Clara Kohl, do Planurb.
        
        - Telhado: As alterações feitas no prédio foram provocando problemas de infiltrações e excesso de calhas. A solução encontrada foi o retorno da cobertura da década de 1930, eliminando paredes e telhados, voltando ao pátio original.
        - Fachada: Na fachada atual, observa-se a presença de aberturas acrescentadas posteriormente. As janelas, por exemplo, cortam a ornamentação horizontal em relevo e destoam das demais. O projeto apresenta a opção de retornar ao modelo de janela da década de 1970
        
        - O prédio, hoje, conta com porta mais baixa que a abertura emoldurada, tendo o vão preenchido. As demais portas emolduradas servem de modelo, permitindo o retorno desta abertura ao padrão estético original.
        
        - Constata-se, comprovadamente, por testemunho e evidências, que as aberturas diversas na fachada da plataforma foram feitas mais recentemente, provavelmente nas décadas de 1980 e 1990 e que são de qualidade técnica e plástica inferiores às demais aberturas. Propõe-se a remoção destas aberturas.
        
        - As aberturas dos guichês da bilheteria foram alteradas, diminuindo o número de quatro para três, sem cuidado estético, tornaram-se quadradas e suas dimensões foram modificadas, além da introdução de grades de ferro. Pretende-se restabelecer a idéia original, comprovada por foto (veja fotografia).
        
        - Só o uso social contínuo é capaz de preservar o monumento. Em razão deste pensamento é que se propõe a diversidade de usos para o local. A intenção é atrair o público com atividades que façam parte do seu dia-a-dia, como buscar diversão em alguma programação cultural, ir a uma feira, encontrar os amigos no bar, e funcionar também como uma estação de embarque e desembarque. Aliado a este uso contínuo, propõe-se o acesso ao conhecimento da memória ferroviária e a participação da comunidade de sua preservação.
        

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