Quinta, 22 de Fevereiro de 2018

HISTÓRIA DE VIDA

'Tive medo de levar um tiro e atirei antes', diz jovem interno em Unei

21 NOV 2010Por Bruna Lucianer13h:00

Dezoito anos e um homicídio no currículo que lhe rendeu o fim da liberdade. De forma um pouco tímida, reticente, PH conta como cometeu o crime que marcaria sua vida para sempre. “A gente estava num cyber; eu, dois amigos e mais algumas meninas. Ele [a vítima] veio para cima da gente como se estivesse armado. Fiquei com medo de levar um tiro e atirei antes. Ele ainda saiu correndo por uma quadra, achei que não tivesse acertado e saí com o carro; só depois as meninas me ligaram e avisaram do que tinha acontecido”. PH estava bêbado, “mas nunca usei drogas”, ressalta.

A polícia foi até a casa dele e ele se entregou. Passou a primeira noite na delegacia e foi encaminhado para a Unidade Educacional de Internação (Unei) Novo Caminho, localizada no Bairro Los Angeles, em Campo Grande. Isso aconteceu há aproximadamente sete meses e o jovem já está prestes a retomar a liberdade.

Vale a pena explicar como e por que.

A Unei Novo Caminho é uma unidade prisional diferente das que se acostuma ver nos noticiários. Não lembra nem de longe uma cadeia – até porque não o é – a não ser pelas grades nas portas. Trata-se de uma unidade provisória para onde são encaminhados os adolescentes infratores até a publicação da sentença. Na teoria, o período de internação não ultrapassa os 45 dias.

Na prática, a situação é um pouco diferente. “Fazemos o possível para manter aqui os jovens de bom comportamento, que demonstram vontade de ressocialização. É o caso de PH”, declara Valdinei Ribeiro Figueiredo, diretor da Unei desde agosto do ano passado.

Figueiredo trabalha como socioeducador há oito anos e acompanhou de perto a verdadeira transformação pela qual passou a Unei Novo Caminho depois de uma reforma estrutural e organizacional. Ele foi um dos responsáveis por fazer valer literalmente o conceito “educacional” aplicado no nome da instituição.

“Já passamos por muitas dificuldades, chegamos a ter quase 70 jovens onde cabem 26. A iluminação era precária, não tínhamos rede de esgoto, as fossas sépticas vazavam, a cozinha era inadequada. Depois da entrega da reforma, em março deste ano, passamos a ter melhores condições de trabalho e esses jovens passaram a ser tratados com mais dignidade”, conta Figueiredo.

Hoje, 27 jovens estão internados na Novo Caminho e esse é um dos fatores que possibilitam um trabalho diferenciado em relação à Unei Dom Bosco, também de Campo Grande, conhecida pelas dificuldades estruturais e de comportamento dos jovens. “Fazemos o possível para que o número de internos não ultrapasse muito a capacidade da Unei. Assim conseguimos oferecer o que os rapazes precisam para reintegrar-se à sociedade”, explica Figueiredo.

Por “o que os rapazes precisam” entenda-se escola regular, condições dignas de sobrevivência – que incluem rede de esgoto, alojamentos ventilados e iluminados, mesa para fazer as refeições –, e ações práticas de reinserção social, que incluem visitas a museus, cinema e até pizzaria. “Muita gente se surpreende e fica até indignada: ‘vocês estão levando marginais para comer pizza?’. Sim, e trata-se de uma prática simples com um efeito enorme na autoestima desses jovens”, defende Figueiredo.

De acordo com o Juiz da Vara da Infância e da Juventude de Campo Grande, Danilo Burin, é impossível, nas condições atuais, fazer o mesmo trabalho na Unei Dom Bosco. “Começa pelo caráter definitivo da internação; o jovem já vai para lá sabendo que vai ficar bastante tempo, o que acaba pesando psicologicamente. Outro fator é a grande quantidade de rapazes, muitas vezes maior do que a capacidade da Unei”, explica. Também tem o fato de serem jovens reincidentes, em sua maioria, familiarizados com o mundo do crime e que já desperdiçaram oportunidades de ressocialização, como as da Novo Caminho.

A reforma e ampliação do prédio da Unei Dom Bosco, localizado próximo a BR-262, devem ser concluídas em fevereiro do ano que vem, o que possibilitará o começo de um trabalho diferenciado lá também. Hoje, esses jovens estão internados nas dependências da antiga Colônia Penal Agrícola.

Depois de 8 anos atuando na Vara da Infância e da Juventude, o magistrado consegue resumir em uma pequena metáfora o trabalho de ressocialização desses jovens em conflito com a lei que aceitam a internação e querem a recuperação: “quando afiamos uma faca, chega um momento em que a lâmina está perfeita, fina e afiada. Se continuarmos a afiar, a lâmina vai entortar. É assim com os jovens que aceitam a reeducação: eles atingem um ‘pico’. Se eles são mantidos por mais tempo atrás das grades, eles podem ‘entortar’”, ilustra. É o caso de PH. É por isso, por ter aceitado a reeducação e ter se tornado um “formador de opinião positiva” dentro da Unei, que chegou a hora de ter a, hoje valorizada, liberdade de volta.

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