Segunda, 19 de Fevereiro de 2018

Crianças birrentas

Tirano ou mal educado?

11 JAN 2011Por Scheila Canto00h:00

Quem de nós nunca escutou os pais falarem que quando crianças eram tratadas como um “criança-adulta”? Bastava apenas um olhar, a ordem nem precisava ser pronunciada. Eles não tinham direito a seus desejos e diversas vezes tinham que assumir responsabilidades de adultos. Nos dias de hoje, os pais têm a preferência em educar seus pimpolhos dando maior liberdade, mas segundo os psicólogos, cerca de 70% dos responsáveis terminam reclamando da inexistência de limites dos filhos, ou seja, de suas próprias falhas na educação. Portanto, criar filhos de maneira mais liberal para prevenir os ‘traumas’ de uma educação repressora demais, pode não surtir o efeito esperado.

A cena de uma criança gritando, esperneando para conseguir algo dos pais em público não é rara. De acordo com os especialistas, os pais sabem que necessitam dar educação, mas não têm ideia de como agir, já que não foram orientados. As funções maternas e paternas precisam ser lembradas, aponta a psicóloga Dora Lorch, autora do livro “Superdicas para educar bem seu filho”, da Editora Saraiva.

Com apenas três anos de idade, Renan dá preocupação de gente grande para sua mãe. Ele é o tipo de criança que não leva desaforo para casa. Responde aos pais, fala palavrão, bate em alguns coleguinhas que se atrevem a desafiá-lo. “Alguns devem ter medo dele”, lamenta a mãe, complementando que também teve comportamento bem rebelde na infância.

Segundo o doutor Gustavo Teixeira, psiquiatra e especialista em comportamento infantil, autor de vários livros psicoeducacionais, entre eles “O reizinho da casa”, pela editora Rúbio, distúrbios de conduta (como mordidas, pontapés, palavrões e outras coisas que fazem seu filho parecer um vikking ao lado dos coleguinhas de escola) costumam aparecer por volta dos 5 ou 6 anos de idade. E nem sempre a culpa é dos pais, por falta de limites.

O outro lado
Segundo o doutor Gustavo trata-se do transtorno desafiador opositivo que pode ser definido como um padrão persistente de comportamentos negativistas, hostis, desafiadores e desobedientes observados nas interações sociais da criança com adultos e figuras de autoridade de uma forma geral, como: pais, tios, avós e professores.

Segundo o psiquiatra, os principais sintomas do transtorno desafiador opositivo são: perda frequente da paciência, discussões com adultos, desafio e recusa a obedecer solicitações ou regras, perturbação e implicância com as pessoas, podendo responsabilizá-las por seus erros ou mau comportamento; se aborrece com facilidade e comumente apresenta-se enraivecido, irritado, ressentido, mostrando-se com rancor e com ideias de vingança.

Os sintomas aparecem em vários ambientes, entretanto é na sala de aula e em casa onde estes podem ser melhor observados e para o diagnóstico tais sintomas devem causar prejuízo significativo na vida social, acadêmica e ocupacional da criança ou adolescente. “Porém, é importante observar que no transtorno desafiador opositivo não há sérias violações de normas sociais ou direitos alheios, como ocorre no transtorno de conduta”, ressalta o especialista.

Quando não tratado o transtorno desafiador opositivo pode evoluir para o transtorno de conduta na adolescência, fato que ocorre em até 75% dos casos de crianças com o diagnóstico inicial. Alguns autores consideram que o transtorno desafiador opositivo é um antecedente evolutivo do transtorno de conduta, que é caracterizado por sérias violações dos direitos alheios e normas sociais.

Gustavo cita em seu livro as técnicas comportamentais eficientes para o manejo dos sintomas de oposição, desafio e desobediência dos nossos queridos “reizinhos e rainhazinhas”. Para ele, a prevenção ou a intervenção o quanto antes é a melhor maneira de evitar problemas futuros, principalmente com desvios de conduta.

Mas, afinal, como saber se a criança sofre da falta de limites ou do transtorno opositivo? Como os sinais de comportamento são bastante parecidos somente um profissional da área de saúde (psiquiatra ou neurologista), comportamento (psicólogo) ou de educação (psicopedagogo) podem dar a certeza do diagnóstico. Pois vai depender de uma avaliação não só da criança, mas também dos pais. Confira outras ponderações do doutor Gustavo no site www.comportamentoinfantil.com.

A literatura tem sido um instrumento de grande valia para os pais nos dias atuais, que tem dúvida sobre como educar corretamente seus filhos. Confira ao lado a lista com algumas sugestões de títulos, além dos já citados acima.

Saiba mais
“Superdicas para educar bem seu filho”, de Dora Lorch, Editora Saraiva. Baseada em sua experiência de psicóloga trabalhando diretamente com famílias, crianças e adolescentes, Dora Lorch escreveu 60 dicas objetivas para auxiliar pais e mães na tarefa de educar os filhos, impondo-lhes limites e protegendo-os, utilizando o diálogo e o amor para torná-los adultos emocionalmente equilibrados e mais bem preparados para a vida.

“O Metodo Kazdin – Como educar crianças difíceis”, de Alan E. Kazdin, Editora Novo Século. Neste livro, Kazdin pretende desfazer mitos sobre ataques de raiva, intervalos, adequação de punições ao tipo de ‘arte’ praticada, entre outros assuntos. Dr. Kazdin acompanha os pais no processo de colocação de seu método em prática - como utilizar o tom de sua voz, como e quando tocar a criança, como encaminhar seu filho numa sessão prática, como ajustar sua abordagem de acordo com a idade da criança, como envolver irmãos e irmãs que não apresentem as mesmas dificuldades.

“Como educar crianças temperamentais”, de George M. Kapalka, Editora Gente. Baseado em pesquisa com pais e suas crianças, o autor apresenta um programa passo a passo para que os pais acabem com os conflitos diários e estimulem seu filho a cooperar constantemente. O livro traz dicas de como resolver os problemas comuns de comportamento como fazer lição de casa, ir para a cama e tomar banho no horário combinado, arrumar os brinquedos e controlar os próprios acessos de raiva.

“Comunique-se com seu filho – De 6 a 11 anos”, de Antoine Alameda, Editora Vozes. Este livro se dirige a todos os pais que um dia tiveram grandes problemas de comunicação com seu filho criança ou adolescente. Ou porque não sabiam o que fazer diante de uma situação inédita para eles ou então porque estavam à beira de um ataque de nervos, perderam a paciência e não sabiam o que fazer porque já tinham tentado de tudo.

“Conceito de obediência na relação pais e filhos, de Luciana Maria Caetano, Editora Paulinas. Este livro apresenta os resultados de uma pesquisa sobre o julgamento moral de pais e mães, com o objetivo não apenas de descobrir o que eles pensam a respeito de obediência, mas buscando também compreender os conceitos que norteiam os adultos em relação aos cuidados necessários ao pleno desenvolvimento da personalidade das crianças.

“Filhos de pais separados também podem ser felizes”, de Fabiano Hueb, Editora Arte Pau Brasil. Este livro é um roteiro para orientar o pai sobre a importância do seu papel no desenvolvimento emocional e felicidade de seus filhos. O autor relata sua experiência como pai presente, mesmo separado da mãe dos seus filhos; mostra também de que forma agir para que os filhos sintam-se amados e sejam felizes, independentemente dos pais estarem casados ou separados.

    
“Limites - Entre o prazer de dizer sim e o dever de dizer não”, de Nina Rosa Furtado, Editora Artmed. Este livro contém múltiplos olhares sobre o estabelecimento de limites, atentando para a diversidade de visões e conceitos sobre o tema, o que assegura ao leitor uma leitura comprometida com o estágio do conhecimento – em constante questionamento.

“Pais competentes = Filhos brilhantes”, de Caio Feijó, Editora Novo Século. Trata-se de um livro único, pois não ensina a controlar a indisciplina, mas como pais e educadores podem identificar as origens desse comportamento nos filhos para resolver a questão. Não existem soluções prontas para cada tipo específico de conflito, nem respostas rápidas sobre determinados assuntos, mas o autor elucida o leitor por meio de explicações científicas sobre os principais fenômenos das relações humanas, associada com propostas de soluções.

“Disciplina positiva”, de Jane Nelsen, Editora Cultrix.
Todos os pais procuram fazer o melhor que podem, mas as melhores intenções nem sempre produzem os melhores resultados. A Dra. Jane Nelsen acredita que as crianças se comportam mal quando se sentem desestimuladas e frustradas em sua necessidade de receber amor e atenção. Uma postura autoritária, com declarações como ‘Faça porque estou mandando!’, só produzirá um comportamento rebelde. Em vez disso, os pais precisam de princípios básicos que os ajudem a se aproximar dos filhos. Eles precisam de ‘Disciplina positiva’. A Dra. Nelsen explica que pais que usam de delicadeza e firmeza ao ensinar os filhos estimulam neles o auto-respeito, a autodisciplina, a cooperação, o bom comportamento e a capacidade de resolver os problemas da vida. Em ‘Disciplina positiva’, ela mostra a todos como seu programa prático funciona e responde a perguntas importantes como estas – Existe um método melhor do que a punição para ensinar as crianças a se comportarem bem? Que erros a maioria dos pais comete ‘em nome do amor’? Como os pais podem transformar seus erros em benefícios? Por que o elogio pode ser perigoso? Quais são os perigos de tentar ser uma ‘supermãe’? Como os professores podem evitar problemas de disciplina na sala de aula?

“O poder da palavra dos pais”, de Elizabeth Pimentel, Editora Hagnos. Todo pai normalmente deseja o melhor para seus filhos. A autora focaliza as causas de erros e acertos que pais cometem ao tentar vê-los bem encaminhados, realizados, felizes e prósperos. Fruto de uma formação profissional somada à experiência de ser mãe, o livro é abrangente e profundo, sem perder a simplicidade que o torna uma orientação que todo pai e mãe precisam para educar bem seus filhos.

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