quinta, 19 de julho de 2018

VIOLÊNCIA

Tema de Lara

19 FEV 2011Por ESTADÃO23h:34

A câmera da CBS ainda rodava quando a jornalista Lara Logan sumiu do enquadramento, engolida por manifestantes na Praça Tahrir, no Cairo. Era o último dos 18 dias de protesto e ela reportava, para o programa 60 Minutes, o júbilo do povo egípcio pós-renúncia de Mubarak. Correspondente internacional há 18 anos, Lara, a chamada "it girl" da CBS, estava no ground zero da notícia no mais importante dia da revolução egípcia – e no pior de sua vida.

A repórter foi cercada por umas 200 pessoas e separada da equipe de filmagem. Num canto da praça, foi espancada e, segundo nota da CBS, sofreu um "ataque sexual brutal", sem maiores detalhes. Um grupo de mulheres viu a cena e pediu que soldados acudissem a moça. Nada foi dito sobre os agressores – nem quantos foram, nem se estão presos.

Os detalhes são nebulosos, mas o New York Post, citando fontes internas da CBS, informou que, na hora da agressão, ouviram-se gritos de "judia, judia". Lara não é judia, mas dias antes tinha sido detida pelo Exército e, num interrogatório de 16 horas, a acusaram de ser espiã de Israel. Já de volta aos Estados Unidos, na segunda-feira, 7, disse a Charlie Rose, da Public Broadcasting Service, que sentia ter falhado profissionalmente e, se pudesse entrevistar Mubarak, estaria no próximo avião de volta ao Egito. Foi o que fez na quinta-feira, 10, quando surgiu a chance de uma exclusiva com o jovem executivo sensação do Google, Wael Ghonim.

Lara Logan é do tipo jornalista-celebridade da TV americana. Assim que soube do ocorrido, o presidente Barack Obama telefonou para lhe desejar uma boa recuperação. A repórter, que em março fará 40 anos, tem longo currículo no front da notícia. Na década de 90, cobriu os atentados terroristas contra embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia, o conflito na Irlanda do Norte e a guerra de Kosovo. Esteve também no Afeganistão, em 2001, e no Iraque – trabalho pelo qual levou o Emmy de melhor reportagem em 2006.

Lara tenta se firmar como a versão loira de olhos azuis de Christiane Amanpour, enquanto dribla comentários sobre sua vida sexual, minuciosamente acompanhada pelo jornalismo fofoca. Seu passado de modelo de biquíni tamanho 44 em Durban, na África do Sul, seu país natal, não é esquecido, e volta e meia faz pipocar ironias contra a "repórter manequim", que, em entrevistas, confessou que o look Barbie às vezes atrapalha.

Não é de surpreender, portanto, que a notícia do ataque sexual gerasse todo tipo de comentário. Três vertentes predominaram. Há os que tentaram fazer da agressão a Lara uma questão religiosa, botando a culpa no fundamentalismo islâmico, que vê as ocidentais como promíscuas. Denúncias posteriores revelariam que o caso Lara não foi isolado e egípcias reunidas na Praça Tahrir para lutar pela emancipação do seu país também foram alvo de assédio sexual.

Há ainda os que culparam a própria Lara pela agressão. Nessa linha, o comentarista conservador Jim Hoft perguntou: por que essa mulher loira e atraente perambulava pela Praça Tahrir? "Foi sua mentalidade liberal que quase a matou. Essa repórter nunca mais será igual." Numa enquete da Approval Pools, 4.100 pessoas, 51% do total, acharam que a jornalista era mesmo a responsável pelo próprio martírio. Por fim, uma avalanche de críticas despencou sobre os cabeças das empresas de jornalismo, que não fariam o suficiente para assegurar a integridade de seus profissionais no fogo cruzado da notícia.

O Comitê para a Proteção aos Jornalistas, que registrou 140 agressões contra repórteres na cobertura política do Egito, também foi criticado por não trazer no seu manual de segurança um capítulo sobre abuso sexual. "A resposta é simples", defendeu-se Lauren Wolfe, diretora do CPJ, "as repórteres não querem falar sobre isso".

Ainda tabu na maioria das redações, a agressão sexual é estorvo comum para as correspondentes, lamenta Judith Matloff, repórter de zonas de conflito por 20 anos. Hoje professora adjunta na Universidade Colúmbia, ela reconhece que as mulheres chegaram ao topo das empresas jornalísticas, exercem as mesmas funções que os homens, são editoras de sucursais nas áreas mais perigosas do mundo, mas em um detalhe serão sempre diferentes dos garotos.

"Eu já fui assediada, não na intensidade do que aconteceu com Lara", disse Judith, em entrevista ao Aliás. Mas, continua ela, insultos verbais e mãos apalpando partes íntimas são obstáculos diários das correspondentes. "Se é estupro, as jornalistas não relatam aos seus superiores, por vergonha ou por medo de que o editor – que geralmente não sabe lidar com isso – a retire da cobertura."

A diretora da Repórteres Sem Fronteiras em Washington, Clothilde Le Coz, concorda que é difícil tornar público o estupro. "Mas é ainda pior para as repórteres locais, que não têm o mesmo apoio e repercussão de uma vencedora do Emmy".

Judith, que é do conselho do Darth Center de Jornalismo e Trauma, diz que medidas de segurança ajudam, como estar acompanhada de um homem ou evitar colares e rabos de cavalo – que podem ser agarrados com facilidade. Mas só isso não resolve, diz ela, já que muitas vezes o agressor não é um anônimo no meio de uma multidão, mas o próprio colega jornalista, o segurança ou até mesmo a fonte. "Os editores precisam continuar enviando as repórteres para guerra e deixar claro que elas devem relatar os abusos, estando seguras de que ainda terão seu trabalho garantido". 

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