quarta, 18 de julho de 2018

Soja chinesa virou brasileira e "invadiu" o Cerrado

26 SET 2009Por 21h:05
     

        Da redação

        As árvores de casca grossa, caules retorcidos, e o chão de terra poeirenta não deixam dúvidas: o cerrado não é lugar para qualquer plantinha. Durante seis meses do ano, entre maio e setembro, não cai uma gota de chuva nesse interiorzão brasileiro. E mesmo quando chove, o solo nativo é imprestável para a agricultura: ácido, cheio de alumínio tóxico e pobre em quase todos os nutrientes essenciais.

        Só mesmo um louco - ou um bando de cientistas destemidos - para achar que esse ambiente de biodiversidade riquíssima, porém aparentemente inóspito e improdutivo, poderia se tornar um dos canteiros mais férteis da agricultura mundial. Mas aconteceu. Foi obra da Embrapa. Trinta anos atrás, a recém-criada Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária lançou sua maior "insanidade" científica: pegou uma planta de origem chinesa, típica de climas temperados, e fez dela a rainha da agricultura tropical.

        A soja, que até os anos 70 só podia ser plantada do Paraná para baixo, onde o clima era mais parecido com o da China, virou-se para o norte e tomou conta do cerrado. Invadiu Mato Grosso do Sul, avançou pelas bordas do Sudeste, conquistou Goiás, criou raízes em Mato Grosso, subiu pelo Tocantins, embrenhou-se no Maranhão e foi bater na porta da Amazônia. "Hoje temos tecnologia para cultivar soja em qualquer lugar do País, em qualquer época do ano", diz o pesquisador Plínio Souza, da Embrapa Cerrados, um dos principais responsáveis pela invenção da soja tropical. "É uma tecnologia 100% brasileira."

        Em pouco mais de três décadas, turbinada pela nova genética verde-e-amarela, a oleaginosa chinesa transformou-se no maior produto do agronegócio brasileiro. Em 2007, a indústria da soja movimentou R$ 41,3 bilhões em grãos, máquinas, sementes, fertilizantes, pesticidas, logistica, mão-de-obra, refino de óleo, produção de ração animal e outros componentes da cadeia produtiva. Isso equivale a 6,4% do PIB agrícola e 1,6% do PIB total do País. Os cálculos foram feitos pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), a pedido do Estado. Só as exportações do complexo soja (grão, farelo e óleo) renderam R$ 26,2 bilhões no ano passado, e a expectativa é que passem dos R$ 32 bilhões em 2008.

        Apesar não ser vista tradicionalmente como um "alimento" - a exemplo do arroz, do feijão e do milho, que são consumidos diretamente no prato -, a soja está embutida, direta ou indiretamente, em boa parte da dieta brasileira. É ingrediente básico de muitos alimentos industrializados no supermercado, na forma de lecitina ou óleo, e principal fonte de proteína na ração de suínos e aves, na forma de farelo. Só fica fora do menu do boi, que come principalmente pastagem. "Quando você come frango e porco, está comendo proteína de soja", diz o secretário-geral da Abiove, Fabio Trigueirinho. Segundo ele, seria impossível o Brasil abrir mão dessa cultura. "Se deixássemos de produzir soja, teríamos de importar."

        No rastro da soja no cerrado vieram o milho, o feijão, o arroz, as máquinas, os fertilizantes, as estradas, a construção civil e os vilarejos transformados em metrópoles da noite para o dia com a riqueza do agronegócio. "Falar de soja é falar de muita coisa. Os benefícios sociais e econômicos, diretos e indiretos, são enormes", diz o ex-presidente da Embrapa, Silvio Crestana.

        De mera periferia agrícola, o cerrado virou o celeiro de quase metade dos alimentos brasileiros. Hoje, 40% dos 200 milhões de hectares do bioma estão ocupados com 61 milhões de hectares de pastagens e 17,5 milhões de hectares de plantações. Segundo cálculos da Embrapa e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), é desse território que saem 47% dos grãos (soja, milho, arroz, feijão, sorgo e algodão caroço), 40% da carne bovina e 36% do leite produzidos no País. "A incorporação do cerrado à agricultura foi a maior conquista do Brasil", afirma José Garcia Gasques, coordenador-geral de Planejamento Estratégico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

        No caso da soja, a contribuição do cerrado cresceu dez vezes entre as décadas de 70 e 80, passando de 2% para 20% da produção nacional do grão. No ano passado, chegou a 68,5%. De fato, a soja foi tão bem adaptada ao cerrado que hoje ela é muito mais produtiva no Centro-Oeste do que no Sul, onde foi originalmente introduzida. Em Mato Grosso, os melhores produtores chegam a ensacar 4,6 toneladas de soja por hectare (a maior produtividade do mundo), enquanto no Rio Grande do Sul a produtividade média é de 2 toneladas por hectare (a menor do Brasil). (informações do Estadão)

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