Fale conosco no WhatsApp

Por sua segurança, coloque seu nome e número de celular para contatar um assessor digital por Whatsapp.

sexta, 15 de fevereiro de 2019 - 17h13min

Sivuca – Maestro da Sanfona

1 MAI 10 - 20h:57

Dona Santina morava entre árvores, à margem direita do rio Paraíba, no início do pequeno distrito de Campo Grande, numa casa cheia de janelas. Tinha a cara e as mãos todas franzinas e os olhos sempre esbanjando bondade. Quando faminto ia visitá-la e ela me dava cocada e tapioca de coco. Penso com saudade daquelas cocadas, daquelas tapiocas, e da cara e das mãos de Dona Santina.

Numa tarde de sol morno ela me recebeu na varanda com a felicidade borbulhando nos olhos. Contou que recebera na parte da manhã a visita do prefeito Josué de Oliveira e, este, para um evento na feira de Itabaiana, lhe encomendara dezenas de cocadas, tapiocas e beijus. A empolgação dela chegou ao auge quando mencionou que o prefeito estava acompanhado do irmão Severino de Oliveira, o SIVUCA, sanfoneiro do qual toda a cidade se orgulhava.

– Ele até tocou uma moda na sua sanfona prateada, em minha homenagem – disse sorrindo, enquanto me entregava um exemplar do Diário de Pernambuco deixado pelo prefeito.

– Ele é branco – ela continuou falando – mas tão branco que mais parece bolha de sabão, é o que chamam de albino...

Correu para a cozinha largando em meu colo o jornal que, ansioso, abri e logo na segunda página estava a reportagem completa da fantástica carreira musical de SIVUCA – apresentado pelo articulista como um dos maiores artistas do século XX, responsável por revelar a amplitude e a diversidade da sanfona nordestina no cenário mundial da música, tido como multi-instrumentalista, maestro, arranjador, compositor, orquestrador e cantor.

Interrompi a leitura para saborear as guloseimas trazidas da cozinha. Dona Santina, bondosa e generosa, notando meu agudo interesse pela leitura, não se fez de rogada e ordenou:

– Gostou do jornal? É seu, leve-o para sua casa.

Naquela noite, sem deixar escapar uma só palavra do jornal, aprendi que SIVUCA nasceu no dia 26 de maio de 1930, em Itabaiana, Estado da Paraíba, e como sanfoneiro estava contribuindo para o enriquecimento da música brasileira, ao revelar a universalidade da música nordestina e a nordestinidade da música universal. Estava sendo reconhecido mundialmente por seu trabalho, incluindo, entre suas composições, dentre outros ritmos, choros, frevos, forrós, baião, blues, jazz e até música clássica. Havia ganho a sanfona do pai em 13 de junho de 1939, num dia de Santo Antônio, aos nove anos. A partir daí, a inseparável companheira o levaria para mundos desconhecidos. Aos 15 anos, ingressou na Rádio Clube de Pernambuco, em Recife. Em 1948, já era apontado como o maior sanfoneiro do nordeste.

Segundo o jornal, SIVUCA gravou o seu primeiro disco em 78 rotações, pela Continental, em 1951, com "Carioquinha do Flamengo" (Valdir Azevedo, Bonifácio de Oliveira e Zequinha de Abreu). Nesse mesmo ano, lança o primeiro sucesso nacional, em parceria com Humberto Teixeira, "Adeus, Maria Fulô". Transferiu-se, em 1955, para o Rio de Janeiro e, no ano seguinte apresentou-se, com estrondoso sucesso, na Europa (Portugal, Espanha e França), sendo, em 1959, considerado o melhor instrumentista do momento pela imprensa parisiense. Residiu em Nova Iorque, onde fez arranjos para músicas notáveis de cantores americanos, excursionando pelo mundo, abrilhantando eventos e divulgando, no mais alto estilo, a já aplaudida música brasileira.

Compôs trilhas para os filmes "Os Trapalhões na Serra Pelada" e "Os Vagabundos Trapalhões". As composições sinfônicas de Sivuca são absolutamente singulares na música erudita brasileira, porque o artista inseriu a sanfona como instrumento principal de sua obra. Um dos LPs mais emblemáticos de sua carreira é o "Sivuca Sinfônico", em que ele toca ao lado da Orquestra Sinfônica de Recife sete arranjos orquestrais de sua autoria, um registro inédito, único e completo de sua obra erudita. Gravou também "Sivuca – O Poeta do Som", que contou com a participação de 160 músicos convidados. Foram gravadas 13 faixas, além de suas reproduzidas em parceria com a Orquestra Sinfônica da Paraíba.

A reportagem finaliza dizendo que uma das músicas gravadas por Sivuca e que traz por título "Feira de Mangaio", estilo forró, é a mais dançada, ovacionada e tocada nas rádios dos estados nordestinos.

Até hoje guardo aquela luminosa reportagem.

 

Notas: 1ª - Sivuca faleceu em 14 de dezembro de 2006, em João Pessoa, capital do Estado da Paraíba; 2ª - Esta crônica faz parte do livro autoral "ITABAIANA – Deslumbramento de uma Época" – no prelo, p/ Life Editora.

 

Reginaldo Alves de Araújo

Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.

Leia Também

Deputados de MS convocam Aneel para explicar aumento na luz
CONSUMO

Deputados convocam Aneel para explicar aumento na luz

Prefeito fiscaliza atendimento nos postos de saúde da Capital
UPA LEBLON

Prefeito fiscaliza atendimento nos postos de saúde da Capital

Chuva transforma rua em rio  de lama no Jardim Monte Alegre
NA LAMA

Chuva transforma rua em rio de lama no Monte Alegre

Acusado de envenenar café de agentes penitenciários é absolvido
JÚRI POPULAR

Acusado de envenenar agentes penitenciários é absolvido

Mais Lidas