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MERCADO

Sistema de indexação alimenta inflação

23 ABR 11 - 10h:00infomoney

A inflação é um assunto que assusta. A cada dia, o noticiário econômico traz as expectativas do mercado e dos economistas para a inflação futura e o resultado não é mais surpresa: alta, perigosamente chegando no teto das estimativas do Banco Central. Por mais que o Governo esteja se esforçando e embora alguns economistas já estejam apontando para um resfriamento da demanda, a alta dos preços só ganha fôlego. Há alguma explicação por trás disso?

Que a inflação tem sido provocada pela forte expansão da demanda e por um movimento internacional das commodities já é sabido, mas há um outro comportamento peculiarmente brasileiro que tem contribuído para manter as projeções futuras em alta: a indexação. Em março, o próprio diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, afirmou "qualquer mecanismo de indexação não é bem-vindo".

A indexação nada mais é que um mecanismo de reajuste de preços, inclusive salários, contratos e aluguéis, com base em índices oficiais de preços. Isso significa que a correção se dá com base na inflação passada. Esse sistema foi criado em meio a um cenário de inflação astronômica e nunca mais foi abandonado.

Mauro Schneider, economista-chefe do Banif, explica que a indexação cria um comportamento inercial e, portanto, fica cada vez mais difícil de a inflação voltar a cair. “É um movimento quase autônomo e fica mais difícil combatê-la assim”, avalia.

Indexação: 2 tipos
Para o economista da LLA Consultoria, Sergio Manoel Correia, há dois tipos de indexação funcionando na economia brasileira. A primeira delas é a contratual, por meio da qual os contratos são reajustados pelo valor da inflação passada, independente de questões de oferta e demanda.

Nesse ponto, Fábia Silveira, analista da RC Consultores, diz que isso é ruim, pois impõe uma rigidez aos índices de preços e faz com que a inflação de difierentes setores “contamine” outros setores que não estavam enfrentando esse problema.

O segundo tipo citado por Correia é a questão psicológica. Os agentes econômicos querem reajustar seus preços antes mesmo de a inflação aparecer. Quando a expectativa de inflação sobe, os agentes reajustam seus preços não no futuro, mas no presente, e sempre tentam reajustar um pouco a mais, criando assim uma espécie de margem de manobra. “Combinado com uma economia pujante, esse mecanismo abre espaço para que o reajuste seja além do necessário, logo a inflação futura tende a crescer”, critica.

Análise setorial
Diante dessa problemática, os economistas concordam que o melhor caminho para o Governo seria olhar caso a caso. Silveira explica que vários contratos de aluguel, de reajuste de telefonia e também de energia elétrica são baseado na variação do IGP (Índice Geral de Preços), que é um índice do produtor. O IGP é muito mais sujeito a pressões inflacionárias do que os IPCs (Índices de Preços ao Consumidor), porque eles têm produtos sujeitos a variação cambial mais explícitos, ou sujeitos à alta de matérias-primas no mercado internacional.

Com esse mecanismo de indexação, setores “saudáveis”, que não necessitam de majoração de preços tão elevada, acabam sendo contaminados pela alta da inflação e isso se espalha por toda a economia. Schneider também avalia que o ideal, no País, seria analisar os contratos e os reajustes por setor, já que cada setor reage diferentemente à inflação.

Solução
Ao analisar possíveis soluções para esse sistema, Silvio Paixão, professor de macroeconomia e Cenários Econômicos da FipeCafi, diz que há um longo caminho a ser percorrido, pois a indexação é uma questão cultural no Brasil.

O primeiro ponto, e o mais crucial, é mexer com expectativas. Porém, essa não será tarefa fácil. O professor explica que o Governo terá que passar credibilidade, com uma política monetária objetiva e determinada, que controle a quantidade de dinheiro em circulação na economia, iniba juros excessivamente altos e especulativos e, ainda, permita o crescimento da atividade econômica. “Falando parece até fácil”, brinca Paixão.

Correia também aposta que o caminho é fazer os agentes econômicos acreditarem no BC, acreditem que a situação poderá ser controlada. “No Governo cada um fala uma língua diferente quando o assunto é inflação. Uns falam em centro da meta, outros em teto da meta e as pessoas não sabem em quem confiar. As pessoas querem garantia”, afirma.

Além de tudo, o BC está creditando o controle da inflação a medidas que são difíceis de medir, como é o caso das macroprudenciais. Não se sabe ao certo qual o impacto disso para desaquecer a economia., não se sabe os efeitos do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). “É mais discurso do que realidade. As pessoas mais ouvem do que observam a prática. No fundo, o mercado está trilhando um território desconhecido, por isso há uma desconfiança”, acrescenta Correia.

O caminho para desindexar
Paixão explica que há alguns caminhos a percorrer, a fim de permitir a desindexação. O Governo precisa conter seu fluxo de caixa, postergando algumas despesas e enxugando alguns custos. “É um exercício fiscal”, avalia.

O professor também afirma que está na hora de o Brasil buscar abrigo estimulando a oferta, mas oferecendo produtos alternativos. “Se o petróleo é um ítem suscetível à inflação, vamos investir no álcool”, sugere. O professor também explica que os ganhos de produtividade são uma oportunidade para o País e diz que se por um lado falta infraestrutura, por outro há espaço para melhorar.

O economista-chefe da Banif afirma que o Brasil precisa abandonar a indexação. Para isso, além da questão cultural embutida no Governo e na sociedade, é preciso fazer uma reforma estrutural. Para ele, somente com o controle da inflação durante anos abriria espaço para o abandono da indexação, pois isso só pode ser feito quando a inflação está baixa a um longo período. Como a situação atual é de deterioração do cenário, o mercado procuraria outro indicador de correção de ativos.

“Abandonar a indexação seria um enorme avanço, pois não só facilitaríamos a queda da inflação, mas também poderíamos partir para metas menores. Ao invés de 4,5%, com o fim da indexação poderíamos buscar um meta de 3,0%, analisa Schneider, que também afirma que o Plano Real, em 1994, foi um trabalho em rumo à desindexação que nunca foi terminado.

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