Campo Grande - MS, segunda, 20 de agosto de 2018

Sem dono

11 AGO 2010Por 07h:15
Policiais militares apreenderam, domingo de manhã, mais de 400 quilos de maconha num Celta abandonado às margens da MS-485, entre as cidades de Coronel Sapucaia e Aral Moreira, na região de fronteira com o Paraguai. Segundo os policiais, o motorista e possíveis outros ocupantes do veículo, que estava com os dois pneus traseiros furados, desapareceram. Dia sim, dia não aparecem notícias semelhantes a esta: veículos abarrotados com drogas abandonados às margens de rodovias, normalmente com pouco movimento. A coincidência envolve agentes das diferentes instituições policiais, como Polícia Rodoviária Federal, Polícia Rodoviária Estadual e Departamento de Operações de Fronteira (DOF). O caso mais célebre desses tradicionais sumiços de traficantes foi o do caminhoneiro que levava mais de 725 quilos de cocaína em meio a uma carga de carne. A apreensão de cocaína, a maior já feita na história do Estado, aconteceu numa rodovia federal, próximo a Jardim.
    É certo que traficante algum seja tolo ao ponto de perder a oportunidade de escapar das mãos da polícia assim que se vê em apuros, deixando carro e droga para trás. Perde-se os anéis e até os dedos, mas só isso. Por outro lado, os narcotraficantes não são desorganizados ao ponto de simplesmente não terem socorro em caso de alguma pane num veículo. Além disso, é público e notório que praticamente todo veículo com entorpecente conta com o apoio de um dou dois batedores, justamente para alertar sobre possíveis barreiras nas estradas e para prestar socorro em caso de necessidade.
    Não existe absolutamente nenhum indício concreto de que algo de irregular tenha acontecido em algum destes supostos abandonos de maconha. Porém, se algum policial tiver cobrado ou aceito propina para liberar os motoristas, dificilmente estes iriam apresentar alguma denúncia, pois acabariam delatando a si próprios. Porém, se os policiais são corruptos, qual a razão para reterem droga e veículos e liberar somente os traficantes, já que poderiam liberar tudo? Este é, certamente, um argumento que pode ser utilizado em favor dos patrulheiros. Porém, quem garante que em incontáveis situações não seja exatamente isto que acontece? Nestes possíveis casos, jamais a sociedade tomará conhecimento. Além disso, quem garante que em determinadas situações os traficantes não tenham dinheiro suficiente para  liberar, junto com eles, droga e carro?  Além disso, todos sabem que todos  os policiais corruptos só conseguem se perpetuar nos esquemas quando eventualmente apresentam resultado. Se nunca fizerem apreensões, rapidamente serão substituídos. É o velho truque de mostrar serviço.
    As suspeitas podem até parecer irresponsáveis e levianas. Porém, a quantidade de apreensões sem dono é cada vez maior e seria interessante que as corregedorias de polícia fizessem um estudo para descobrir possíveis coincidências de local, data e equipes envolvidas. Depois,  o resultado desse estudo deveria ser divulgado, pois a imagem inteira das instituições está sendo afetada.

Leia Também