Quinta, 22 de Fevereiro de 2018

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Segredo de Gerson não é algo ilegal por causa do patrocínio da novela

30 OUT 2010Por Por Ale Rocha/Yahoo07h:26

Afinal, qual o segredo de Gerson Gouveia (Marcello Antony) em “Passione”? O autor Silvio de Abreu guarda a informação a sete chaves. Na internet, telespectadores apostam nas possibilidades mais escabrosas, de pedofilia a zoofilia. Afinal, apenas algo chocante justificaria a reação de Diana (Carolina Dieckmann), que ficou atônita quando acessou o computador do ex-marido. Ou a chantagem de Saulo (Werner Schünemann) antes de ser assassinado.

No entanto, é nula a probabilidade de Gerson guardar um segredo que horrorize a audiência. Porém, dessa vez não se trata do pesado filtro moral dos autores que tanto critico nas novelas brasileiras. Quem definiu o destino do personagem foi um acordo comercial. Segundo informação divulgada pela “Folha de S. Paulo” há algumas semanas, o que Gerson faz de tão misterioso no computador “não é algo ilegal, é tratável e é algo do cotidiano”. Ele terminará “Passione” como um vencedor. Tudo isso foi garantido pela Globo à Goodyear, que patrocina o personagem.

“Não teria como a Goodyear ajudar em algo ilegal. A única ação nesse caso seria tirarmos o patrocínio, mas isso [aparecer assim na trama] não teria sentido para nós. Sabemos que é tratável e que é uma coisa do cotidiano”, declarou Rui Moreira, diretor de marketing da empresa, ao jornal. “A gente tem um acordo com a Globo de que não pode ser nada negativo para a marca, que não é relacionado a crime e é algo que tem tratamento.”

Da forma como existe atualmente, o comercial acabará em breve. O mercado publicitário já busca alternativas para o tradicional intervalo. Uma das possibilidades é o merchandising. Além de atraente para os anunciantes, a prática é extremamente rentável para as emissoras. Um anúncio de 30 segundos no intervalo de “Passione” custa, em média, R$ 400 mil. Já o merchandising pode chegar a R$ 1 milhão.

Porém, na sede de faturar, as emissoras andam abusando deste tipo de publicidade, o que tem irritado parte da audiência. Durante a exibição de “Passione”, não é rara a reclamação de telespectadores no Twitter sobre ações invasivas e explícitas. Contudo, uma coisa é sentir vergonha alheia quando uma personagem exagera na descrição das qualidades de um creme hidratante. Outra, bem pior, é notar que o merchandising está influindo nos rumos da trama.

Na entrevista à “Folha de S. Paulo”, o diretor de marketing da Goodyear deixa claro o risco de pular fora do barco caso o segredo de Gerson não agradasse a empresa. O abandono custaria caro aos cofres da Globo. Aliviar a trama do personagem foi a saída encontrada pela emissora, nem que isso cause uma provável frustração na audiência.

Não é segredo para ninguém que vivemos em um país conservador. Diante disso, a preocupação das empresas ao atrelar sua marca a um personagem é legítima. Nenhuma companhia deseja ter seu principal patrimônio nas mãos de alguém odiado pelos telespectadores. Porém, a clara interferência dos interesses comerciais sobre a trama é preocupante.

Afinal, o segredo levou Gerson a pensar em suicídio, ser abandonado pela esposa e chantageado pelo irmão. O que parecia ser bizarro, nojento e absurdo será apenas algo tratável e do cotidiano. É bom que o telespectador fique atento ao desenrolar da trama do personagem. Não só por curiosidade, mas para reclamar, com razão, se acabar frustrado pelos planos de um anunciante. Isso tirou a liberdade de Silvio de Abreu e limitou o mistério da trama. Até que ponto o crescimento dos merchandisings vai comprometer as novelas?

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