domingo, 22 de julho de 2018

CORUMBÁ

Secretário lembra 42 anos do isolamento de Jânio Quadros

9 DEZ 2010Por DIÁRIO ONLINE07h:40

O confinamento do ex-presidente Jânio Quadros em Corumbá, em 1968, foi relembrado nesta quarta-feira, 08 de dezembro. Victor Eugênio, secretário particular do ex-presidente e que acompanhou Jânio nos 120 dias de exílio, contou a experiência do exílio durante uma palestra na Câmara de Vereadores.

Eugênio, que hoje é consultor empresarial, esteve acompanhado pelo  brigadeiro Agenor Figueiredo, que comandava o avião presidencial, na década de 50, e por Manuel Correia Ribeiro, um dos agentes federais que fizeram a segurança do ex-presidente e da mulher, Eloá, durante o confinamento no quarto 606 do Hotel Santa Mônica. Victor também conheceu a galeria mantida pelo hotel para preservar o episódio histórico.

Os quatro meses em Corumbá foram determinados pelo então presidente, o marechal Artur Costa e Silva, que governou o Brasil de 15 de março de 1967 até 31 de agosto de 1969. Por ordem do Ministro da Justiça da época, Luís Antônio da Gama e Silva, Jânio Quadros foi preso pelo Exército e encaminhado para o exílio na cidade que pertencia ao então estado do Mato Grosso. A finalidade era isolar o ex-presidente e afastá-lo das manifestações políticas, que eram constantes em 1968. Mesmo com os direitos políticos cassados, Jânio tinha grande apelo popular.

“O presidente Jânio chegou a Corumbá no dia 30 de julho de 1968 para um confinamento de 120 dias. Na chegada, foi recebido pela sociedade e foi informado que um comitê já havia sido montado”, contou o secretário particular. Até hoje, Eugênio disse não saber os motivos para a escolha de Corumbá como sede do exílio. “Chegou ao conhecimento do presidente, de bastidores, que antes havia se pensado na ilha de Fernando de Noronha; depois Cáceres e finalmente Corumbá. Mas a razão exata [da escolha] não sei”.

Mesmo sem saber o porquê da definição pela cidade, Victor contou que a ordem para manter o ex-presidente afastado “veio após uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo”, lembrou o secretário. Nela, o ex-presidente teria tecido críticas ao regime militar que governava a nação.
A passagem por Corumbá, em seu entendimento, fez a cidade experimentar “um movimento nunca visto na história do país”. Para cá se dirigiam políticos e imprensa de todos os cantos do Brasil para acompanhar os passos do ex-presidente.

Se engordasse, desmoralizaria o confinamento

Amigo de primeira hora do ex-presidente, Victor Eugênio, revelou uma estreita ligação de Corumbá com a carreira política de Jânio. “O corumbaense Iturbides de Almeida Serra, colega de faculdade dele, foi eleito vereador em São Paulo em 1947 e não foi empossado. Com isso, o Jânio que tinha ficado na suplência assumiu o cargo”, contou. Com a cassação dos mandatos dos parlamentares do Partido Comunista Brasileiro – por determinação geral do então presidente Eurico Gaspar Dutra – ele assumiu uma cadeira na Câmara Municipal daquela cidade, exercendo o mandato entre 1948 e 1950.

Dois episódios, bastante pessoais, que marcaram a trajetória em Corumbá foram revelados pelo secretário particular.  “Ao final do trigésimo dia de confinamento, o presidente assustou-se porque havia engordado 5 quilos. Disse-me então que se engordasse 20 quilos ao final dos quatro meses, iria desmoralizar a instituição do confinamento”, contou relembrando que Jânio Quadros decidiu por uma refeição: ou almoço ou janta. “Quando completou o segundo mês, a dona Eloá (mulher de Jânio) teve de ir para São Paulo para atender a filha e não pode voltar para cá”, lembrou. Sozinho, o ex-presidente cumpriu o isolamento até 28 de novembro de 1968.

Victor Eugênio esclareceu uma das maiores polêmicas de Jânio Quadros na presidência da República: a condecoração de Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Ele lembrou que Cuba estava abrindo a primeira concorrência internacional e o Brasil tinha interesses comerciais. “O Jânio não teve dúvidas, colocou na pauta a condecoração para o Che”, seis dias depois renunciou à Presidência da República. O secretário contou que ainda na campanha para presidente, Jânio visitou Cuba a convite de Fidel Castro, onde conheceu Ernesto Guevara.

Convivendo com o ex-presidente por mais de três décadas, Victor Eugênio – que é filho de uma corumbaense – disse que Jânio faz falta ao cenário político brasileiro. “A liderança que ele exerceu; o conhecimento que ele tinha; a visão holística de mundo e política com absoluta certeza fazem falta. Se tivesse cumprido o mandato, ele teria dado uma grande contribuição a democracia e sobretudo à educação política”, finalizou.

Ideia é promover nova palestra

Autor da proposta da visita do secretário particular do ex-presidente Jânio Quadros a Corumbá, o vereador Carlos Alberto Machado, disse que já planeja o retorno de Victor Eugênio para uma palestra para toda a sociedade corumbaense.  “Estamos pensando numa reunião maior para a população tomar conhecimento desse episódio de nossa história”, disse a este Diário.

Para esse novo encontro, a ideia a atrair escolas; universidades e os mais variados segmentos sociais. “Convidamos escolas, mas o período de encerramento do ano letivo acabou impedindo a presença de nossos estudantes”, afirmou o parlamentar.

Machado contou que essa página da história não podia ficar sem que os corumbaenses tomassem conhecimento do relato de uma pessoa que vivenciou aquele episódio. “Um ano atrás conheci o Victor e ele me contou essa história. Eu fui servente da Polícia Federal naquela época e me lembro de muitos fatos. O convidei para que viesse falar desse marcante momento da história do país. O Jânio foi um marco na história brasileira”, complementou.

Jânio da Silva Quadros, nascido em Campo Grande (MS) foi o 22º presidente do Brasil. Exerceu o mandato de 31 de janeiro de 1961 até 25 de agosto de 1961, data em que renunciou, alegando que "forças ocultas" o obrigavam a esse ato. Também foi governador de São Paulo (1955 a 1959); prefeito de São Paulo (1953 a 1955 e de 1986 a 1989). Morreu aos 75 anos em 16 de fevereiro de 1992.

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