Domingo, 17 de Dezembro de 2017

Sanga

5 JUN 2010Por 20h:38

Sanga na linguagem fronteiriça quer dizer vala profunda e desbeiçada, aberta pelas enxurradas.
Sanga tem sua história.
Lenda bonita “que os de dantes” contavam, na hora do mate de coco, pormenorizando tudo, na vivência do passado, para reavivar a memória, que nunca deve embotar-se, porque quem recorda o que passou, vive; e, é no viver do passado remoto, que a alma da gente se alvoroça, e o pensamento fica ligeiro como corrida de gringo contrabandista.
Por isso os antigos gostavam de desfilar lendas e contar histórias.
A da Sanga era assim:
A moça, flor do sertão, delicada e bela, enamorou-se de um jovem; de um rapagão, forte e musculoso, que ali aparecera.
O mancebo chegou, e logo mostrou quem era: um corre-mundo, um safardana, um gaiteiro, um prófugo...
De coisa de suar, de avermelhar o rosto, de vergar a espinha, nada queria. Só de festa, de bochinchada, gostava. E, também, adorava o baralho.
Num truco refestelava-se todo.
Gritava, fazia sapateio, dizia versos picantes e soltava para o ar, num grito de guerreiro vitorioso, churriada de frases e ditos.
Os pais da donzela o odiaram.
Quem vivia a deambular, se metendo em desaguisado, provocando e ofendendo, trilhando todos os caminhos, sem pouso certo, nada tendo de seu, a não ser o cavalo mal aperado, não podia merecer o amor de quem havia sido criado com mimo, na santa e augusta paz do Senhor; de uma criatura sensível e pura, meiga e terna, que sabia orar, de mãos postas, contrita, pelo desapoderado, pelo perjuro e mau e pelos que sofriam, pelo faminto, roto e pelo desajustado...
Quem era bondade e pureza, humildade e amor, jamais poderia unir-se ao cardo; entregar-se a um cristão que representava a lama, o estrume, o repelente e a podridão.
E a vizinhança inteira detestou o errante, dando-lhe o desprezo. Mas a virgem enamorada não cedeu. Ofendeu o pai, desrespeitou a mãe, injuriou o irmão e praguejou, má e impiedosamente, os íntimos, os que a queriam, os justos, os conselheiros.
Desgraça que tem de acontecer, acontece mesmo! A moça desvairada fugiu com o trota-mundo. A mãe desvairada caiu doente. E chorou quarenta dias e quarenta noites. Perdeu as forças e, veio-lhe a cegueira. Dos olhos, profundos e negros, o pranto jorrava em borbotões. Não mais se alimentou. A boca se lhe transformou num rasgo de meter medo e impressionar.
Um tarde, um vulto surgido das sombras falou-lhe:
– Seu corpo desaparecerá, mas seus olhos ficarão, pregados à terra, em forma de uma vala ou estrada funda, que o povo fronteiriço chamará de Sanga. Dentro dela correrão as águas das enxurradas, que representarão as lágrimas que os seus olhos choraram, quarenta dias e quarenta noites.
Quem passar e ver a Sanga, profunda e desbeiçada, lembrará a sua história e amaldiçoará a filha ingrata que fugiu com o moço andejo.
Eis porque as Sangas existem!...
A Sanga fronteiriça será sempre a lembrança daquela mãe aflita e daqueles olhos de amor e ternura, que secaram pelo desgosto e pelo sofrimento...

 Hélio Serejo

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