Terça, 20 de Fevereiro de 2018

Saneamento, questão de saúde para a população

20 SET 2010Por Bruna Lucianer11h:32

Haverá um tempo em que água potável vai faltar. Isso não é pragmatismo de ecologista; é fato: trata-se de um bem natural finito e o seu uso descuidado e indiscriminado trará consequências desastrosas. Projeção da Organização das Nações Unidas (ONU) mostra que, em 2050, mais de 45% da população mundial não terá a porção mínima individual de água para atender às necessidades básicas. Mas é exatamente o conceito de “necessidade básica” que precisa ser revisto pela sociedade. Alimentar-se e higienizar-se são necessidades básicas; despejar em média 10 litros de água tratada em uma descarga, não.

Hoje, a descarga do seu banheiro é a etapa final de um processo que começa na lavoura, com o cultivo dos alimentos. Esses alimentos são colhidos, consumidos, digeridos e eliminados. Depois, os efluentes sanitários seguem por quilômetros de tubulações até as Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs); pelo menos para os 51% de moradores de Campo Grande que já se conectaram à rede coletora. Ali, os efluentes são tratados e devolvidos aos cursos d’água.
Isso é o que preconiza a Lei número 11.445/2007, das diretrizes nacionais para o saneamento básico. Ela determina que “toda edificação permanente urbana será conectada às redes públicas de abastecimento de água e de esgotamento sanitário disponíveis e sujeita ao pagamento das tarifas”. Esgoto tratado e acesso à água de qualidade estão lado a lado no rol de direitos fundamentais dos seres humanos. Ambos ajudam a garantir condições básicas de saúde à população.
Estudo do Instituto Trata Brasil, organização que trabalha para que o país possa atingir a universalização do acesso à coleta e ao tratamento de esgoto, mostra que as principais vítimas da falta de esgoto são as crianças com idade entre 1 e 6 anos e as grávidas, pois a condição aumenta em 24% as chances de seus filhos nascerem mortos.
Dados da Secretaria Municipal de Saúde Pública (Sesau) mostram que, somente em 2009, 43,9 mil pessoas procuraram a rede municipal de saúde com diarréia, principal doença relacionada ao saneamento ambiental inadequado. Isso dá uma média de 845 casos por semana, o que mostra o longo caminho que Campo Grande ainda precisa percorrer no quesito saneamento básico.
Fazer com que a rede de esgoto alcance 100% dos domicílios campo-grandenses é um sonho viável se considerarmos que, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), a cidade saltou da 56ª posição no ranking nacional do saneamento em 2004 para a 36ª posição em 2008, com um aumento de 38% no índice de atendimento.
Esta é a realidade que encontramos hoje: a necessidade do tratamento adequado para o esgoto doméstico e as dificuldades enfrentadas para tal, como o custo elevado para o transporte e o tratamento dos efluentes, além da resistência de uma parcela da população a pagar pelo serviço. Novas alternativas precisam ser estudadas, o quanto antes.

Reutilizar, alternativa viável para o futuro

Reutilizar é a palavra-chave. Aqui, vamos falar da reutilização de água, urina e fezes. Pode soar estranho, nojento; mas é um conceito futuro de saneamento que merece, no mínimo, a sua atenção. Trata-se do fechamento perfeito daquele ciclo de produção, que começa na terra onde o alimento é cultivado e termina no esgotamento sanitário da nossa casa, mas poderia perfeitamente não terminar ali.

É uma alternativa, conhecida como saneamento ecológico, para quando não seja mais concebível contaminar litros e mais litros de água potável apenas para mandar embora os nossos excrementos. E quanto antes começar a discussão, melhor. “É complicado lidar com questões culturais.  O sonho das pessoas mais simples é ter um banheiro com descarga em casa. E se você falar que ele vai ter um banheiro, mesmo sofisticado, sem descarga, ele não quer”, ilustra uma das cinco pessoas responsáveis por estudar o assunto no Brasil, a doutora em ciências ambientais e pesquisadora da UFMS, Paula Loureiro Paulo.
Vaso sanitário sem água, com compartimentos que separam urina e fezes. À primeira vista parece um retrocesso sanitário, a volta aos tempos da latrina. Mas não é bem assim. Já implantados em alguns domicílios de países ditos “de primeiro mundo” como Suécia, Noruega e Dinamarca, os sanitários secos têm um compartimento que armazena as fezes e um funil para outro compartimento que armazena a urina. As fezes podem passar por processo de compostagem e virar adubo e a urina, misturada à água, é um ótimo fertilizante natural. O ciclo fechado.
Consciente da dificuldade da implantação de um sistema inovador como este, a professora Paula vem inserindo o conceito de saneamento ecológico em seus projetos aos poucos. Ela começou com a segregação dos nutrientes na fonte, ou seja, separar a água do vaso sanitário do resto da água da casa.
Segundo a professora Paula, quando a água do vaso sanitário é misturada às outras, ela fica muito mais difícil de tratar, pois os agentes patogênicos, os que causam doenças, estão basicamente no vaso sanitário.
Cerca de 30% da água usada numa residência vai para a descarga. Assim, os outros 70%, provenientes do chuveiro, pias e tanque, acabam poluídos por causa dessa carga e o tratamento lá na ETE fica mais complicado.
Ter dois encanamentos seria o ideal: um para o vaso, ligado à rede de esgoto, e outro para todas as outras águas, direcionando-as para um reservatório. Se você reserva a água que usou para lavar a roupa e a reutiliza para lavar as calçadas, por exemplo, você já se enquadra dentro do conceito de saneamento ecológico. Mas essa água pode ser utilizada para fins mais nobres, como rega de hortas e jardins ornamentais.

“Um dos nossos projetos consiste em tratar a água cinza (pias, tanque e chuveiro) na própria residência, usando sistemas naturais com plantas ornamentais. Enquanto trata, ela já é o seu jardim”

Só o fato de não jogar as águas cinzas na rede coletora já diminui o trabalho da rede de esgoto, graças à diminuição do volume. Numa escala maior e num certo tempo, isso traria benefícios imensos em relação à conservação da água.
A urina, pasmem, é o nutriente mais completo que existe, rica em nitrogênio, fósforo e potássio. Dilua uma parte de xixi em dez partes de água e tenha um fertilizante potente nas mãos. Tanto se fala em reciclagem de materiais, quando o que se faz urgente e necessário é a reciclagem de hábitos e culturas de comunidades.
“O saneamento ecológico tem lugar para todas as classes sociais, para todos os bolsos, e para todas as situações, tanto para quem tem água como para quem não tem. Basta usar técnicas diferentes. Se você consegue fechar um ciclo: se você consegue reutilizar nutrientes ou água de alguma maneira, você já está dentro do conceito. O negócio é reutilizar”, finaliza Paula.

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