Campo Grande - MS, sábado, 18 de agosto de 2018

Cuidados

Responsabilidade na dose certa, no tempo certo

9 MAI 2011Por IG23h:23

Cuidar do irmão mais novo, chegar da escola e passar a tarde sozinho em casa aquecendo a própria comida no microondas, assumir tarefas domésticas para ajudar os pais que não têm tempo para cuidar da casa, ter uma agenda lotada de atividades aparentemente prazerosas e construtivas: estes são exemplos de uma rotina que pode ser muito pesada para uma criança. Ser responsável demais e correr de um compromisso para o outro significa ter a infância roubada por coisas de gente grande.

Mesmo quando parecem crescidinhos o suficiente para se virarem sozinhos, crianças e adolescentes precisam sentir que existe um adulto cuidando deles. Assumir responsabilidades antes da hora e acima da capacidade individual para dar conta delas pode ser um grande entrave para o desenvolvimento saudável.

De uns tempos para cá, talvez desde a vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente, começamos a tomar consciência de que a criança tem direito de ser criança, e o adolescente tem direito de ser adolescente. Parecemos estar deixando para trás o discurso “melhor ocupado e trabalhando do que fazendo besteiras”. Mas ainda falta muito para uma cultura realmente capaz de respeitar as diferenças entre o mundo adulto e o infantil, de maneira que haja bom senso para introduzir os deveres de forma positiva na vida de quem está em formação.

A introdução de responsabilidades e tarefas no dia a dia das crianças é importante para o desenvolvimento infantil, mas os pais precisam saber quando e como elas devem entrar na rotina dos filhos. Precisamos reconhecer que algumas coisas são feitas muito mais para atender às necessidades dos pais de organizar a própria vida do que como resposta natural ao crescimento dos filhos.

Para o psicanalista Rubens Maciel, não é a idade cronológica que deve servir de parâmetro para dar responsabilidades às crianças, mas o grau de maturidade, sinal muito particular. Uma criança de oito anos pode reagir melhor do que uma de 14 em determinada situação. Os pais precisam de proximidade e de muita intimidade com os filhos para avaliar quando eles estão prontos para assumir uma nova responsabilidade. E é preciso saber dosar. Não se deve entupir uma criança de coisas para fazer e esperar que ela cuide dela mesma só porque se mostra madura.

Na avaliação dele, o excesso de responsabilidade pode ser interpretado pela criança como um ônus: “Os meus pais me usam para executar tarefas”. E a agenda lotada de compromissos pode criar uma mágoa e uma ambivalência (amor e ódio) muito grande em relação aos pais: “Enquanto me ocupam, os meus pais aproveitam para fazer coisas prazerosas para eles. Eles não querem ficar comigo”.

Segundo o psicanalista, o sentimento de que os pais estão lhe tirando tempo de brincar e de criar laços com os seus pares deixa marcas capazes de perdurar na vida adulta e impactar a personalidade e o humor da criança. Por outro lado, em relacionamentos bastante amorosos, os filhos podem compreender a necessidade dos pais e cumprir com as responsabilidades por amor a eles. Podem até se sentir valorizados e importantes, encarando as perdas da infância de forma menos dolorosa.

Embora não tenha consciência das consequências, a criança é movida por medos e culpas ao sentir que determinada tarefa é pesada demais para ela. Para piorar, as críticas que recebe se algo sai errado agravam a situação. Ela pode crescer sem capacidade para desenvolver bons relacionamentos, estará sempre olhando para as deficiências e não para as boas qualidades das pessoas. E, tomada pela ansiedade, pelo medo da crítica e pela baixa autoestima, pode se tornar uma pessoa com tendência a não testar as coisas e não colocar à prova as próprias capacidades.

Para o psicanalista, é importante que os pais saibam que o instinto natural das crianças e dos adolescentes é a busca do prazer. Para isso, eles precisam brincar, ter tempo ocioso e dormir mais. “Prazer no trabalho é coisa de adulto, não é coisa de criança”, disse Rubens. Com a maturidade, eles vão trocando as brincadeiras e a preguiça por algo mais construtivo, mas fazem isso para ter o amor dos pais. Apenas no final da adolescência, quando estudam para o vestibular, por exemplo, eles assumem responsabilidade por amor próprio. A tarefa ganha sentido e, conscientemente, são capazes de trocar uma balada pelo estudo.
 

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