Segunda, 19 de Fevereiro de 2018

ESTRATÉGIA

Reservas encostam na marca dos US$ 300 bilhões

4 FEV 2011Por ESTADÃO00h:48

As reservas internacionais brasileiras encostaram ontem na marca histórica de US$ 300 bilhões - atingiram US$ 299,184 bilhões -, reavivando o debate sobre os limites da política agressiva de compra de dólares que vem sendo implementada pelo Banco Central. A estratégia de aumento constante das reservas, embora tenha como consequência evidente uma redução no risco externo do País, cumpre o objetivo do governo de conter a tendência de valorização do real.

 Mas essa política também tem um custo, resultado da diferença entre os juros praticados no Brasil e no exterior. É que, ao comprar dólares, o BC se endivida em reais, já que a taxa de juros é de 11,25%. Ao mesmo tempo, aplica os dólares em títulos do governo americano, cuja taxa é um pouco superior a 3%.

Os cálculos diferem entre os economistas, já que os custos internos e externos variam, além do peso do fator câmbio. De qualquer forma, uma estimativa simples colocaria o custo na casa dos US$ 20 bilhões por ano, além da elevação do estoque da dívida pública.

O governo argumenta que a discussão do custo não pode ser desvinculada dos benefícios que a atual política traz. Afinal, o desempenho do País na crise, com redução da dívida líquida do setor público no momento em que o dólar disparou e rápida recuperação da atividade econômica, mostra que vale a pena ter esse seguro. Mas esse argumento pode fortalecer a tese dos que não veem mais sentido em seguir reforçando o colchão de dólares do governo. Afinal, se usando apenas pequena parte do montante dos cerca de US$ 200 bilhões que estavam guardados em 2008, o Brasil saiu da maior crise em 80 anos, qual a necessidade de se ter mais reservas e impor um custo fiscal? O governo não dá essa resposta.

Enxugar gelo

O ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas entende que continuar comprando dólares e aumentar as reservas é uma política de "enxugar gelo". "Quanto mais aumenta as reservas, menor a percepção de risco e, por sua vez, maior o incentivo à entrada de dólares, exatamente em um contexto em que se quer evitar o ingresso de moeda estrangeira", disse Freitas.

Ele entende que não se pode mudar a tendência de valorização do real. Por isso, a alternativa seria deixar a moeda americana cair ante o real, o que ajudaria o BC na tarefa de recolocar a inflação na meta. Freitas reconhece que a valorização do real teria impacto negativo nos exportadores, que poderiam ser compensados por medidas de natureza tributária. Na visão dele, a atual política econômica trabalha com meta de inflação e de câmbio, o que pode ser problemático. "Quem olha para várias coisas, acaba não acertando nada", diz.

O estrategista-chefe do banco WestLB, Roberto Padovani, afirma que a alternativa que o governo tem para a política de acumulação de reservas é o tão falado e já praticamente controle fiscal de qualidade, além de promover políticas regulatórias.

O economista entende que o Brasil precisa buscar poupança externa para dar conta de sua expansão, o que gera ingressos de capitais externos e valorizam o real. "A saída é aumentar a poupança doméstica. E quem tem condição de fazer isso é o governo, já que as empresas já poupam e as famílias, como em média têm renda baixa no Brasil, não têm como fazê-lo."


Para entender

As reservas internacionais funcionam como um seguro. Quando um país possui muitos dólares mostra aos investidores que tem capacidade de quitar os compromissos internacionais. Mas, como todo seguro, isso tem um preço. No Brasil, esse custo tem crescido porque os juros estão em trajetória de alta. Para o BC aumentar as reservas, é preciso fazer três operações distintas.

Primeiro, a autoridade monetária toma reais emprestado de bancos e, para isso, paga os juros da taxa Selic, atualmente em 11,25% ao ano. De posse dos reais, ocorre a segunda transação: o BC compra dólares no mercado.

Com a moeda estrangeira na mão, a última operação: a instituição adquire títulos de dívida de governos, como os papéis do Tesouro dos Estados Unidos. É aí que mora o problema. Os papéis de 10 anos dos EUA têm rentabilidade de pouco mais de 3% ao ano. Dessa forma, o Brasil paga 11,25% a quem emprestou os reais e só recebe 3% de juros nos títulos norte-americanos. A diferença entre as taxas - mais de 8% ao ano - é o custo de se elevar as reservas e é bancada pelo governo brasileiro.


Colchão de dólares

US$ 299,2 bi
é o valor que as reservas internacionais alcançaram ontem

US$ 20 bi
é a estimativa do custo anual da política do governo de aumentar as reservas com o objetivo de conter a valorização do real

US$ 200 bi
é o quanto de reservas que se estima estavam guardadas em 2008  

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