Domingo, 25 de Fevereiro de 2018

REPORTAGEM PREMIADA ? O difícil retorno dos guató às terras dos ancestrais

26 JUL 2010Por 23h:48
 O jornalista Sílvio Andrade (abaixo do lado esquerdo), correspondente do Correio do Estado, em Corumbá, venceu o Prêmio Famasul de Jornalismo. Ele concorreu à premiação com uma reportagem da Revista Panorama Cultura, de São Paulo, sobre os índios guatós. Sílvio foi selecionado na categoria Impresso/Revista e, ao concorrer com os vencedores das demais categorias, ganhou o prêmio Master, O jornalista esteve no ano passado na aldeia da tribo dos guatós, que fica isolada no Pantanal, a 350 quilõmetros de Corumbá, fronteira com a Bolívia e divisa com Mato Grosso. Sílvio ganhou R$ 2 mil e uma viagem para o Nordeste. O prêmio foi entregue na noite de sexta-feira.  (Milena Crestani).

 

 

Abaixo a reportagem premiada:

 

Nos anos 50 do século 20 foram considerados extintos ? uma sentença de morte implacável, da qual colaborou o sertanista Darcy Ribeiro. Redescobertos duas décadas depois, vivendo do subemprego nas cidades do Pantanal, seu território, os guató, índios canoeiros, renasceram como uma fênix da mitologia. A reorganização da tribo é um fato sui generis na história dos povos indígenas sul-americanos.

No dia 29 de novembro de 1994, os navegantes eternos, como assim se referenciam os espanhóis e portugueses que exploraram a região a partir do século 16, retomaram às terras de seus ancestrais, a Ilha Ínsua, situada no coração da planície pantaneira. Mais do que serem reconhecidos, os guató lutaram contra o Exército brasileiro, que não os queria naquele lugar ermo, por ser fronteira com a Bolívia.

Aos 70 anos, o cacique assume o timão do barco Guató 1, doado por organizações internacionais, único meio de locomoção dos índios. Severo Ferreira foi guarda municipal por 16 anos em Corumbá, onde chegou adolescente acompanhando sua família expulsa da Ilha Ínsua. Filho da artesã Josefina, quis o destino que se tornasse o cacique da tribo e liderasse o retorno dos guató a seu território, em 1994.

Navegando pelo sinuoso Paraguai, rio acima, os olhos marejam quando o velho guató se recorda da luta para recuperar suas terras. Ao lado da esposa, a índia aimoré Dalva, Severo diz que o maior desafio, agora, é reintegrar seu povo ? cerca de 230 índios de uma população estimada em mil. Depois de décadas de abandono, vivendo do subemprego nas cidades, o difícil recomeço com a perda da identidade.

Ele se lembra do dia em que teve de abandonar a ilha, aos 15 anos, para viver num mundo desconhecido. "Quem ficasse teria que trabalhar de peão. O fazendeiro mandou medir e tomou nossas terras", diz. "Quando os estudos nos reconheceram legítimos donos, em 1984, o Exército fez pé duro e não nos deixou voltar. Ganhamos a guerra na democracia, hoje os militares nos servem."

A reconquista das terras veio uma década mais tarde, mas o ato de homologação foi assinado mais tarde, pelo presidente Lula, no dia 10 de dezembro de 2003. "A gente vivia espalhado por todo esse Pantanal, onde mais de 100 aterros contam a nossa história", observa o cacique. Ele pediu mais terras à Funai. "Queremos reaver os alagados, onde tomávamos banho e caçávamos."

 

O amigo Lula

Severo vem travando outra batalha: impedir que os barcos com turistas pesquem em suas águas sagradas e piscosas. Já liderou os guató para fechar a entrada da Lagoa Uberaba, caminho que dá acesso à reserva. Tem o apoio do destacamento do Exército, instalado no lugar chamado Porto Índio, e do Ibama, que monitora a região, entorno do Parque Nacional do Pantanal.

Filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), um dos históricos companheiros de Lula, o cacique afirma que cumpriu sua missão, apesar de todas as adversidades. A reserva tem energia solar, água tratada, posto médico e uma escola, que esse ano introduziu o ensino médio e a educação infantil. As famílias recebem cestas básicas do governo, embora Severo preferisse maquinários para plantar.

 

"Quero viajar (morrer) deixando o nome do guató na terra. Nossa luta foi um sucesso, hoje vivemos felizes, em paz".

 

O vínculo com a cidade, contudo, é um mal necessário. Índio também tem direito a férias e na primeira semana de fevereiro o cacique retornou à ilha com a família (quatro filhos e doze netos), depois de dois meses em Corumbá. Ficaram alojados no Guató 1, ancorado no porto da cidade. Tempo suficiente para Severo cobrar mais apoio da Funai e as promessas dos vereadores do PT que ajudou a eleger.

 

Choque cultural

O guató contemporâneo fala como um urbano, não sabe mais sua língua. A cultura do branco predomina na aldeia, no jeito de vestir, no modo de pensar dos mais jovens. As crianças preferem a cidade e brincam o que lá aprenderam, como soltar pipa, descer os barrancos da lagoa em carrinho de rolimã ou "guerrear" com bonecos de heróis da TV comprados na feirinha boliviana, em Corumbá.

O próprio cacique e sua família têm fortes ligações com a cidade, onde viveram no bairro Cristo Redentor. Severo mantinha uma oficina de bicicletas; dona Dalva, cuidava do bolicho. Porém, resistiram à cultura do branco e preferem a vida no mato, pelo qual lutaram heroicamente. "Aqui é melhor do que na cidade. Lá, tudo gira em torno do dinheiro, até por um copo de água", diz Dalva.

 

Sem limites

A readaptação às terras é um desafio, incluindo o isolamento, dificuldades de acesso e a escassez da caça e da pesca, que eram abundantes. A maioria ainda vive como branco. O cacique mantém sua casa na periferia de Corumbá, onde mora um dos filhos, Aida. "Ela ficou na cidade porque o marido (também guató) trabalha de lanterneiro e está bem empregado", justifica ele.

O primo do cacique, Anísio Guilherme Fonseca, 42, também optou pela vida urbana. Formado em Geografia, ex-ferroviário demitido por integrar movimento sindical, é uma das lideranças da tribo e já se candidatou a prefeito e vereador em Corumbá pelo PT e PSOL. É um dos "pensadores" guató: "Não queremos cerca, nossas terras nunca tiveram limites. Também não queremos subsistir, mas existir", cobra.

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