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Campo Grande - MS, segunda, 17 de dezembro de 2018

Crônica

Recordando XXV

2 FEV 2010Por 21h:21
As Igrejas no Nordeste são, via de regra, majestosas, talvez por ter sido por lá o início de parte de nossa cultura, calcada no espírito português, eminentemente católico e nos anos que a Igreja Católica vivia seu apogeu. Campina Grande, principal cidade da Paraíba, onde nasci, tinha uma excelente matriz, a de Nossa Senhora da Conceição, onde meus pais casaram e onde fui batizado. Pois bem, era imponente a igreja onde, invariavelmente, minha mãe nos levava para a missa aos domingos. Conto isso para justificar a importância que aquela grandeza nos influía. Quando nos mudamos para cá, para essa nossa mui querida Campo Grande, chegamos em 2 de janeiro de 1940 e, no primeiro domingo, meu pai dizia a minha curiosa mãe que a missa seria ali bem perto, pois morávamos na Rua Rio Branco, na Capelinha. A Capelinha meus amigos, como o nome indicava, era mesmo uma coisa pequena, pequena e humilde, não passava de uma casinha de madeira com alguns bancos humildes espalhados num chão de cimento queimado, de imensa modéstia. Meu Deus, pensava eu, que diferença! Mas modesto mesmo, e além disso humilde, era o padre, o velho padre que de tão velho já não dispensava um banquinho onde sentado fazia os seus sermões. Ele podia até ser humilde, e era, mas tinha em sua volta, um certo halo de santidade que irradiava pelo pobre salão. Seu nome era Padre João Crippa e, em suas homilias, quase sempre lembrava fatos nos quais Dom Bosco era a figura principal, e dizia, com uma felicidade que não procurava esconder, ter sido seu aluno e dele ter ouvido o que nos contava. Pela primeira vez em minha vida ouvia depoimentos partidos de quem convivera com um santo. E sabe de uma coisa, ele também tinha aspecto, jeito, fala e rosto de santo. Eu não podia deixar de comparar a minha velha matriz com a pobreza que via ali, mas nunca, diante daquela riqueza toda em que fui criado, eu sentira Deus tão perto. Volta e meia eu ia por lá, onde tinha uns dois ou três campinhos de futebol, onde o velho padre reunia crianças, geralmente meninos de rua, para um catecismo com a promessa de logo após jogarem o seu futebol, do mesmo jeito que seu velho mestre Dom Bosco o havia ensinado. Ele circulava por entre seus meninos como um bom pai o faz. Não lhe dizia o seu grande mestre: “Deixai vir a mim as criancinhas”? Muitos anos depois, nós ganhávamos lá, no mesmo local, uma bela e luxuosa catedral, a nossa Catedral de São José. Não é que a sementinha que o velho santo plantara com tanto amor estava parecendo a “minha” matriz? Pode até ser que ela, a minha matriz, guarde com sua grandeza a minha saudade, mas o meu crescimento religioso se solidificou mesmo naquela modesta capelinha, onde um velhinho, já cansado, rezava suas missas, inesquecíveis missas. Era a Capelinha do Padre João Crippa.
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