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Campo Grande - MS, domingo, 16 de dezembro de 2018

Quase um garoto

4 ABR 2010Por 19h:58

Márcio Maio, TV Press

 

Ney Latorraca já soma 65 anos de idade, mas sua maturidade não foi capaz de apagar o moleque inquieto e travesso que parece viver dentro do ator. Tanto que, mesmo depois de quase meio século dedicado à profissão, a estreia da série "S.O.S. emergência", na qual interpreta o atrapalhado dr. Solano, ainda é capaz de mexer com sua ansiedade. Um "frio na barriga" que, em parte, pode ser justificado, ironicamente, em sua própria experiência. "Me sinto mais inseguro sim, até porque sou mais exigente agora", analisa, mostrando que sempre espera mais de si.

E isso não se resume ao campo artístico, mas também à vaidade pessoal. "Ontem separei a cueca, a meia, a camisa e a calça branca que usaria aqui. Queria estar bem para que seus leitores me vissem bem. Acho que é um lado meio criança que temos de ter para fazer comédia. Assim, colocamos a nossa criança brincando com a criança do público", filosofa.

Você é um ator com aparições mais espaçadas na tevê. O que o fez aceitar o convite para participar de "S.O.S. emergência"?

R - Estou há exatamente um ano sem fazer televisão, desde que acabou "Negócio da China". Completo, em 2010, 66 anos de idade, 46 de carreira e 36 de Globo. Sou dos poucos atores da emissora que teve a chance de fazer novelas, teatros adaptados, musicais – tive um programa, "A saudade não tem idade", que era exibido às sextas –, novelas, minisséries e ainda participei do "TV pirata". Quando o Mauro me chamou e me falou qual era o elenco e quem eram os autores, fiquei interessado. Todos os nomes envolvidos são do teatro e isso já é um grande passo para dar certo. É um detalhe que conta muito. Para me tirar de casa hoje em dia, tem de ser algo que realmente me dê prazer.

Você se diz seletivo na hora de escolher o que vai fazer. Ficou mais difícil aceitar integrar o elenco de um programa de humor depois de ter participado do "TV pirata", que até hoje faz sucesso na Internet, em DVD e que é referência na comédia brasileira?

R - Não funciona dessa forma. Acredito que a pessoa só se renova quando está cercada de novidades, de jovens. Aqui existem muitos atores que são novos e conseguem me trazer esse frescor. "TV pirata" foi um projeto inovador, até hoje as pessoas comentam e sentem falta, mas no "S.O.S emergência" também existe a novidade. São dois jovens autores, por exemplo. O mais importante é sempre investir no que pode ser surpreendente na tevê. Foi assim naquela época.

Na sua trajetória televisiva, muitos de seus papéis são voltados para a comédia. Você sente falta de explorar mais outros gêneros no veículo ou prefere mesmo se dedicar ao humor?

R - O que me agrada na televisão pode vir de grandes dramaturgos, não existe uma regra. O que acho importante destacar é que a comédia é o gênero mais nobre que existe. Fazer uma pessoa gargalhar no mundo em que a gente vive é uma vitória. E para você construir a comédia, a ação da graça, tem de ter uma base, estar estruturado. Sou formado pela escola de teatro da USP e trabalhei com profissionais com talento indiscutível, como o Bruno Barreto, o Walter Avancini e o Ruy Guerra. Tenho o direito de brincar porque tenho essa estrutura. E é daí que nasce a graça. No mundo inteiro, a palavra comediante é usada para o ator que faz drama e humor. No Brasil não, parece algo menor, o que é errado.

Em "S.O.S. emergência", seu personagem é um médico. E você já declarou ser hipocondríaco. Pensou em levar alguma história sua para o programa?

R - Ainda não aconteceu, mas é provável que sim. Sou totalmente hipocondríaco e, além disso, adoro médicos! Tenho meu grupo de médicos, um para cada função: pulmão, coração, ortopedia, enfim, uma equipe minha! Quando apareço na clínica, sai todo mundo correndo! (risos). Parei de fumar há sete anos e estou sempre ligando para o meu médico e perguntando se ele está satisfeito. Eu sou assim, é um jeito meu. Acho que as profissões mais nobres são ator e médico. Os médicos cuidam da saúde e nós, da alma. A diferença é que eles lidam com a morte e nós, com a vida.

Em 36 anos de Globo, suas aparições em novelas são bem espaçadas. É uma opção sua ou coincidência?

R - Para mim, o trabalho tem de ser um exercício. Por isso mesmo, gosto de mudar o gênero. Não tenho nada contra novelas. Mas dei sorte porque a emissora preferiu me aproveitar em outros tipos de produções também.

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