sábado, 21 de julho de 2018

MATO GROSSO DO SUL

Produtor cultivará 40 mil hectares de algodão, soja e milho no Sudão

25 DEZ 2010Por Neri Kaspary15h:15

Depois de um ano de testes e resultados “fantásticos”, quando foram plantados “somente” 400 hectares de algodão e 100 de soja, o produtor sul-mato-grossense Gilson Pinesso pretende “partir de corpo e alma” em 2011 para o longínquo país africano do Sudão, plantando 20 mil hectares de algodão, 10 mil de soja e 10 mil de milho. A previsão é que sejam investidos em torno de US$ 80 milhões de dólares na aquisição de maquinários, fertilizantes e sementes. E o desembolso só não é maior porque não é necessário comprar terras, que são públicas e cedidas gratuitamente pelo governo para aqueles que quiserem produzir, conforme Gilson Pinesso.

Neste primeiro ano ele levou somente três brasileiros para cuidar das lavouras. No próximo, principalmente no período do plantio, pretende arregimentar pelo menos 40. Destes, dez devem permanecer em tempo integral, principalmente técnicos e administradores para supervisionar o desenvolvimento das lavouras. E, na hora da safra, novo reforço deve ser levado.

Embora o Sudão fique “do outro lado do mundo”, a viagem não é nenhum bicho de sete cabeças. “Em 15 horas estou lá”, revela o agricultor, que vez ou outra leva este mesmo tempo para se deslocar de uma fazenda para outra aqui no Brasil, já que a família cultiva em torno de 80 mil hectares em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e no Piauí. Em média, a empresário rural visita a África a cada 60 ou 70 dias. Primeiro vai a Istambul, na Turquia, e depois leva mais quatro horas até Karthum (capital do Sudão) ou alguma cidade mais próxima de Agadi, onde estão suas lavouras. Então, bancar as idas e vindas de dezenas de trabalhadores, que já atuam com ele nas fazendas brasileiras, não inviabiliza o negócio, segundo ele.

O deslocamento compensa porque os custos de produção são inferiores, a logística de venda é melhor e preços são superiores. A saca de soja, por exemplo, está cotada a 32 ou 33 dólares no mercado interno, já que o Sudão importa praticamente tudo o que consome, ante 26 pagos atualmente em Mato Grosso do Sul. Mas, a produção ainda é menor, dois mil quilos por hectare na África, contra 3,2 mil no Brasil. Isto, porém, deve mudar logo, acredita ele, pois sementes estão sendo adaptadas ao clima local e em duas ou três safras e produtividade deve ser semelhante à brasileira. A diferença, porém, é o custo de produção. Aqui gasta-se em torno de 800 dólares por hectare, ante 350 necessários no país muçulmano.

No caso do algodão, produto que nunca na história teve cotação tão alta quanto agora, R$ 95 a arroba, a diferença é ainda maior. Nas terras sul-mato-grossenses ou mato-grossenses são necessários em torno de 1,5 mil quilos de fertilizantes, contra um terço disto na férteis áreas do Rio Nilo, região central do maior país africano e décimo maior do mundo, com cerca de 2,5 milhões de quilômetros quadrados. No Brasil são necessárias 22 aplicações de agroquímicos por safra, contra seis em Agadi. Os sudaneses plantam com US$ 850 por hectare, enquanto no Brasil são cerca de US$ 1,9 mil. Além disso, o algodão produzido por lá fica a 400 quilômetros do porto e dali está no mercado asiático em questão de dias. E, tanto lá quanto cá colhem-se de 3,5 a 4 mil quilos por hectare. De Mato Grosso até os portos mais próximos são em torno de dois mil quilômetros e depois mais algumas semanas para atravessar o Atlântico. Isto tudo torna o produto africano bem mais competitivo e lucrativo.

 Desbravador

Gilson Pinesso acredita ser o único agricultor brasileiro no Sudão. Mas, se depender dele, a partir de 2012 haverá verdadeiras caravanas para lá. E esta não é a primeira vez que um dos Pinesso abre fronteiras agrícolas. O avô de Gilson veio da Itália ao Brasil em 1923, para a região de Bebedouro, em São Paulo. Vite e sete anos depois, quando o noroeste do Paraná estava sendo “aberto”, foi para a região de Francisco Beltrão. Mais tarde, em 1976, o pai de Gilson comprou a primeira fazenda em Mato Grosso do Sul, época em que começaram a chegar os primeiros gaúchos e paranaenses para cá. Mas a migração estava longe de parar. Em 1983 decidiram comprar terras em Mato Grosso e no ano passado, no Piauí. Ele não sabe se o passo dado no começo de 2010, para a África, foi o último. Está claro, porém, que voltou para mais perto da terra de onde saiu seu avô há quase 90 anos, pois é da Itália que compra boa parte das máquinas que utilizará para produzir na África.

E, da mesma forma como foram “imitados” por outros em MS, MT e PI, Gilson acredita que os Pinesso serão seguidos na África, onde, segundo ele, existem oito milhões de hectares de terras “fantásticas” para serem cultivados.

Atualmente, o pouco que se ouve falar sobre o Sudão é relativo aos conflitos étnicos da região de Darfur e da guerra civil existente há cerca de cinco décadas. Isto, porém, garante ele, não interfere na atividade agrícola. E, depois do plebiscito de 9 de janeiro, que tende a aprovar a divisão do país, a estabilidade deve aumentar, acredita o produtor. A cultura muçulmana, bem mais rígida, também não atrapalha o negócio. “Só ajuda, pois já tenho quatro belas morenas lá e tenho direito a outras três”, brinca o agricultor de 50 anos.

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