Sexta, 23 de Fevereiro de 2018

SAÚDE

Pressão alta nos pulmões

21 NOV 2010Por Thiago Andrade00h:00

Doença rara, a hipertensão arterial pulmonar (HAP) atinge – segundo informações da Organização Mundial de Saúde – cerca de 15 pessoas a cada um milhão. Entretanto, é uma enfermidade que necessita de cuidados específicos e a medicina se volta cada vez mais para este problema. Caracterizada pelo aumento da pressão na circulação pulmonar acima de 25 mmHg, provoca falta de ar, sintoma que aumenta progressivamente, levando a quadros de vertigem, desmaio, fadiga, dor no peito, pele azulada, tosse, inchaço nos pés e tornozelos, entre outros. A baixa incidência faz com que médicos pneumologistas, em geral, não estejam preparados para lidar com a doença.

De acordo com o médico pneumologista, Abílio Reis, de Portugal, a doença é causada pelo aumento de dificuldade na circulação pulmonar em razão de alterações na estrutura de artérias do órgão. “Elas se tornam mais apertadas, aumentando a espessura e diminuindo o canal, facilitando o entupimento e a formação de coágulos”, explica. A doença também favorece o aparecimento de cardiopatias, principalmente, a hipertrofia do coração em razão do aumento de atividade para bombear sangue para o pulmão.

“A sobrecarga do ventrículo direito pode ocasionar sua falência e levar o paciente a óbito”, descreve o médico. Como todas as doenças crônicas, o diagnóstico precoce é a principal forma de combater a evolução dos sintomas. Mas, no caso da HAP, o desconhecimento se mostra o principal vilão, pois médicos não estão preparados para reconhecer os sintomas de uma doença rara, pouco conhecida e de alta gravidade. Sem tratamento, a sobrevida do paciente após o diagnóstico é de 2,8 anos.

Estudos demonstraram que doenças cardíacas congênitas, infecção pelo vírus HIV, doenças do tecido conectivo, esquistossomose, entre outras patologias, além do uso indiscriminado de moderadores de apetite podem desencadear quadros de HAP. “Nos últimos 12 anos, o avanço sobre o conhecimento da doença foi grande, mas ainda resta um longo percurso. O único meio de cura é o transplante, mas só é indicado quando o paciente não responde mais à medicação”, aponta a presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Jaquelina Sonoe Ota Arakaki.

Reis explica que o tratamento da hipertensão arterial pulmonar é realizado apenas em centros de referências – hospitais com equipamentos e médicos capacitados para lidar com doenças específicas. No Brasil, existem 1,9 mil pacientes em meio a 127 milhões de brasileiros adultos. Embora não haja explicação para o que leva a doença a se desenvolver, alguns dados empíricos demonstram a prevalência em mulheres, entre 30 e 36 anos, tendo causas hereditárias e idiopáticas.

Lado humano
Entre os brasileiros que convivem com a doença, o campo-grandense Getúlio Vargas Almeida, de 76 anos, sub-tenente aposentado do Exército Brasileiro, foi diagnosticado em maio deste ano. “Estava em Maceió no começo do ano, quando tive uma súbita falta de ar, minha visão apagou e por pouco não desmaiei. Sou cardiopata e imaginei que o motivo fosse esse”, descreve o reservista. Cilindros de oxigênio fazem parte da paisagem caseira. A lista de medicamentos chega a R$ 4 mil, bancados pela família de Getúlio.

“O Exército Brasileiro deveria me ajudar, mas a burocracia está tornando isso complicado. Estou com processo aberto para conseguir a ajuda que me é devida, depois de 30 anos servindo o País”, lamenta o militar. Como o Sistema Único de Saúde fornece gratuitamente apenas um dos medicamentos que Getúlio utiliza no tratamento, os gastos estão dificultando a vida financeira da família.

Debilitado, com dificuldades para falar e respirar, Getúlio conta que a doença o tornou apático e desanimado. “Ela me enfraquece, tornando difícil atividades rotineiras como caminhar ou levantar peso. Preciso de oxigênio durante 24 horas por dia”, conta. O diagnóstico foi feito em São Paulo, pelo médico pneumologista e infectologista, José Roberto Jardim. Contudo, Getúlio esclarece que não foi possível realizar a biópsia que constataria sua condição, pois o uso de anestesia geral poderia complicar sua condição.

Para um homem que costumava correr entre 10 e 12 quilômetros por dia e, atualmente, tem dificuldades em andar 20 metros, a doença é um suplício. “Gostaria de não ter que usar oxigênio e nem tomar essa quantidade de comprimidos. Mas sei que meu quadro não tem cura e preciso fazer o máximo para mantê-lo estável”, pontua.

Em Campo Grande, o Hospital Universitário da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) criou um Centro de Apoio para os portadores da doença. Entretanto, o tratamento é feito somente nos centros de referência dispostos da seguinte maneira: São Paulo (9), Minas Gerais (5), Rio Grande do Sul (2), Rio de Janeiro (2), Pernambuco (2), Ceará (1), e Distrito Federal (1). Mais informações no portal HAP www.hipertensaopulmonar.com.br.

Dificuldades no tratamento
Para Jaquelina Arakaki, o Brasil enfrenta o problema do Ministério da Saúde não ter um programa específico para a doença. “Eles se baseiam na ideia de que por ser uma patologia rara entre a população, não demanda investimentos, principalmente, pelo alto custo dos medicamentos. Contudo, é esse alto custo que coloca os pacientes em xeque. Sem apoio, a maior parte está fadada à morte”, descreve.

Enquanto na Europa e nos Estados Unidos, existem em média sete medicamentos para o tratamento da HAP, no Brasil apenas três estão no mercado. Atualmente, as drogas Iloprostil e Ambrisentan aguardam liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para serem liberados.

A pesquisadora da Unifesp aponta que a falta de preocupação tanto do governo, quanto da classe médica no País, apenas contribui para que não haja melhoras efetivas em relação à doença. “Além da falta de estudos para identificar com maior precisão a doença, uma classe médica que desconhece a necessidade de diagnosticar a HAP, ainda nos faltam medicamentos”, comenta. É um quadro grave e assustador para os portadores desta patologia. Como lembra o médico português Abílio Reis, o número de casos pode crescer a medida que se compreender melhor a doença.
 

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