Sábado, 17 de Fevereiro de 2018

RISCO DE INFECÇÃO

Preservativo é aceitável em certos casos, diz Bento XVI

21 NOV 2010Por BERLIN04h:40

O Papa Bento XVI admitiu pela primeira vez que o uso da camisinha pode ser justificável em alguns casos e clama por uma "humanização da sexualidade" para o combate à Aids. As declarações estão no livro "A luz do mundo. O papa, a Igreja e os sinais do tempo. Uma conversa com o santo Padre Bento XVI" (Libreria Editrice Vaticana, € 19,50), do escritor e jornalista alemão Peter Seewald, que reúne as entrevistas que fez com o pontífice. A obra será lançada nas livrarias no dia 23. O diário do Vaticano L’Osservatore Romano adiantou trechos do livro ontem.

Em uma série de entrevistas publicadas na Alemanha, sua terra natal, o papa de 83 anos foi questionado se "a Igreja Católica não é fundamentalmente contra o uso de preservativos". O Papa respondeu que a "Igreja não vê o preservativo como uma solução real e moral mas, em certos casos, onde a intenção é reduzir o risco de infecção, ele pode ser utilizado como um primeiro passo para outro, mais sexualmente humano", disse o papa, chefe mundial de 1,1 bilhão de católicos.

"Concentrar-se somente no preservativo representa banalizar a sexualidade", alerta o papa, segundo o qual as pessoas não veem mais nela a expressão do amor, mas um tipo de droga. "Por isso mesmo a luta contra a banalização da sexualidade faz parte de um grande esforço para que ela seja valorizada positivamente e que possa exercitar seu efeito positivo sobre o ser humano na sua totalidade", diz em trecho da entrevista.

Entre os casos justificáveis de uso do preservativo, Bento XVI dá como exemplo o de uma prostituta, como "o primeiro ato de responsabilidade para desenvolver novamente o conhecimento do fato de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo aquilo que se deseja".

No livro de 284 páginas, dividido em três partes – "Os sinais do tempo", "O pontificado" e "Sobre aonde vamos" –, o papa Ratzinger também afirma que não foi pego "totalmente" de surpresa em relação ao escândalo de padres pedófilos. Ele diz ter tomado conhecimento de ocorrências com padres norte-americanos quando estava na Congregação para a Doutrina da Fé e de casos na Irlanda, mas que a dimensão que se seguiu foi "um choque enorme".

O papa relata que as acusações contra o sacerdócio e contra a própria Igreja foram muito difíceis de suportar, mas que o importante naquele momento era não se distanciar do fato de que o bem existe dentro da Igreja, muito além daquelas "coisas terríveis".

Bento XVI criticou o trabalho da imprensa na cobertura dos escândalos. "Era evidente que a ação da mídia não era guiada somente pela pesquisa pura sobre a verdade, mas era uma satisfação em colocar a Igreja numa situação embaraçosa e, se possível, em desacreditá-la."

 Mulheres
O pontífice evoca a formulação do papa João Paulo II para as mulheres dentro da Igreja, segundo a qual ela não possui o poder de conferir às mulheres a ordenação sacerdotal. "Não se trata de não querer, mas de não poder", diz Bento XVI. Ele afirma que a formação dos 12 apóstolos e seus sucessores, com os bispos e sacerdotes, é uma determinação divina. "Segui-la é uma questão de obediência", alega.

Bento XVI não vê razão da proibição generalizada do uso da burca. Ele ressalta os casos em que as mulheres, por outro lado, são obrigadas a usar o acessório. "É claro que com isso não se pode estar de acordo", diz.

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