domingo, 15 de julho de 2018

Poucas opinam pouco na hora de escolher o tipo de parto

6 FEV 2010Por 13h:00
     

        Da redação

        O medo da dor, a preocupação com o bem-estar do bebê e com o próprio corpo são alguns dos fatores que tornam o parto um dos momentos mais delicados na vida da mulher. Mas, com exceção da parcela da população que procura atendimento humanizado e pode pagar por ele, as brasileiras opinam pouco quando se trata de escolher a forma de parir.
        A arquiteta Anna Amorim, de 27 anos, sempre teve o desejo e a certeza de que teria um parto normal. Durante o pré-natal do filho Pedro, ela chegou a trocar de obstetra porque "sentia que a cesárea era certa". O segundo médico, que atendia pelo mesmo convênio, lhe deu um prazo: 40 semanas. "Embora seja considerada normal uma gestação de até 42 semanas, ele avisou que não esperaria mais que 40."
        Na data marcada, ainda sem sinais do trabalho de parto, Anna foi avaliada. "Ele disse que não ia dar certo. Eu acreditei."
        Depois de passar por experiência parecida em sua primeira gravidez, a psicóloga Pérola Boudakian, de 32 anos, decidiu contratar uma equipe especializada em parto humanizado para assistir o nascimento da caçula Beatriz. "Fui atrás do prontuário do primeiro parto e descobri que o médico havia forjado um diagnóstico para justificar a cesariana ao plano de saúde. Não quis arriscar passar por isso de novo."
        Pérola enfrentou 33 horas de um trabalho de parto difícil, mas fez valer sua vontade de dar à luz a filha sem cirurgia. "Se não fosse uma equipe humanizada, não teria esperado."
        Humanização do parto é procurar fazer com que o nascimento seja o menos traumático possível para mãe e bebê, explica o obstetra Francisco Vilella. "Procuro respeitar os processos da natureza, evitar intervenções", conta.
        Mas isso tem um custo, que varia entre R$ 6 mil e R$ 8 mil. "Às vezes fico mais de 12 horas acompanhando um parto", diz Vilella. O médico Marcos Tadeu relata o mesmo. "Não consigo realizar mais que quatro ou cinco partos por mês. Fico à disposição da gestante 24 horas por dia durante nove meses. É impossível fazer isso com o que se recebe dos convênios."
        A remuneração pelo parto na saúde suplementar varia de R$ 300 a R$ 600. "Uma coisa é ganhar esse valor com hora marcada, outra é viver de sobreaviso", diz Olímpio de Moraes Filho, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. "Há dez anos se faz campanha para diminuir as taxas de cesariana nos convênios, mas os números só crescem. Estamos em quase 90%, embora pesquisas tenham mostrado que só 30% das brasileiras fazem essa opção no início do pré-natal."
        Para Moraes Filho, é preciso mudar o paradigma do atendimento obstétrico no País. "O Brasil é um dos poucos lugares onde existe essa relação pessoal entre gestante e obstetra."
        Uma saída seria os hospitais privados receberem verba dos convênios para manter uma equipe de obstetrícia. A gestante faria o pré-natal com um grupo de médicos e o parto com o que estivesse de plantão. "Muitos obstetras não querem dividir as pacientes. A situação atual é cômoda para os convênios. É difícil mudar. As maiores prejudicadas são as mulheres, que ficam sem autonomia."
        ACOMPANHAMENTO
        Pesquisa recente da Organização Mundial da Saúde aponta que a mortalidade materna, a necessidade de transfusão de sangue e de internação em UTI é quase três vezes mais frequente nas cesarianas sem indicação médica do que no parto normal. O estudo, feito na Ásia e publicado na revista The Lancet, traz resultados mostrando vantagens do parto normal que, apesar de muito divulgadas no País, não conseguem diminuir o índice recorde de cesáreas: 43%. (do Estadão)
        

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